Vingança das entidades?

Humberto Dantas

14 Março 2014 | 07h43

O documentário “Onde a Coruja Dorme” mostra relatos de compositores que trabalharam com Bezerra da Silva. O finado sambista, conhecido por cantar como poucos a realidade dos morros do Rio de Janeiro, era “ponta firme” e “não dava volta em ninguém”, como canta uma de suas canções. A despeito de sua vasta discografia, destaque para a canção “Candidato Caô Caô”, onde o político sobe o morro sem gravata, afirma que gosta da raça, vai à tendinha, bebe cachaça e até bagulho fuma. Depois de jantar no barracão e usar lata de goiabada como prato, se mostra um típico candidato. Vai ao terreiro, pede ajuda e até bate cabeça no congá, ou seja, reverencia as entidades daquela casa de Umbanda. O problema, diz a música, é que o guia estava incorporado e logo avisou: “esse político é safado, cuidado na hora de votar”. E vai além: “depois que ele for eleito dá aquela banana pra você, pode crer!” Assim, quando eleito, o candidato caô caô, ou 171, malandro ou safadão na linguagem imortalizada por Bezerra, não costuma voltar e cumprir o prometido. Como assim?

 

Pois é. De promessas estamos cansados. Parece tradição. Mas e quando o político se volta contra o terreiro? Em 2010 o candidato eleito ao governo da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), teve seu nome envolvido em “denúncias” de que é adepto das religiões negras do Brasil. Qual o problema? Para os acusadores isso seria uma forma de denegri-lo. Mas não existe liberdade de fé nesse país? Claro que sim, mas há também preconceito de sobra. Infelizmente. Preconceitos que em 2011, acusam adeptos da Umbanda, fizeram com que a prefeitura paraibana de Sapé fechasse o terreiro Sete Flechas, de Pai Ivanildo. Incomodado com os batuques, segundo o Blog do Silvano Silva, o vice-prefeito Melcíades José de Brito (PC do B) comandou a interdição alegando falta de alvará e CNPJ. Já imaginou se todas as igrejas, a despeito da crença, fossem questionadas por isso? Em São Gonçalo, Rio de Janeiro, no mesmo ano de 2011, pelo menos dois outros centros foram fechados pela prefeita. De acordo com seus responsáveis, em matéria do jornal Extra, anos de tradição desmoronaram. Detalhe: uma das casas era considerada o local onde a Umbanda foi fundada faz mais de um século. A história dessa típica religião brasileira teria sido destruída? Difícil dizer, mas o fato é que a prefeitura alegou que ali seria construída uma vila olímpica com dinheiro federal.

 

A despeito do que foi feito dos locais, o fato é que em 2012, Adolpho Konder (PDT) foi apoiado em São Gonçalo pela prefeita Aparecida Panisset (PDT) e não foi eleito. Em Sapé, o vice prefeito foi candidato e por lá a sova que tomou nas urnas foi digna da ira das entidades: teve quase vinte vezes menos votos que o vencedor. O guia da canção de Bezerra da Silva, incorporado, teria mandado novos recados? Pode ser, mas se formos crer nessa energia a chance de medalha dos atletas da vila olímpica de Panisset se reduz expressivamente. O melhor, nesse caso, é crer que nossa lei é bem clara: o respeito às diferentes religiões, a plena liberdade de crença, é mais sagrado do que qualquer interpretação fantástica que possamos fazer. Nisso nós podemos e devemos acreditar sempre. No mais: cada um crê no que de fato crê!