Vereador por um dia em São Paulo

Camila Tuchlinski

20 de maio de 2016 | 12h40

Em uma campanha eleitoral de outrora, o então palhaço Tiririca dizia que queria ser eleito para descobrir “o que faz um deputado”. Na verdade, quem não gostaria, de fato, de viver um dia ‘na pele’ de um parlamentar? Há um projeto na Câmara Municipal de São Paulo que torna isso realidade.

De autoria do vereador Ari Friedenbach, o Programa Parlamento Cidadão faz com que estudantes universitários da área do Direito possam ser vereadores por um dia! E aí eles vivenciam todo o funcionamento do poder Legislativo municipal, com todas as regras e limitações. Na última quinta-feira, 19, um grupo de jovens se reuniu no plenário Primeiro de Maio da Câmara Municipal paulistana. No final, o melhor projeto será apresentado pelo vereador Ari Friedenbach na Câmara Municipal como uma proposta real para a cidade. Esta é a terceira edição do trabalho.

No 1º Programa Parlamento Cidadão, o projeto escolhido foi o PL que determina a Inserção do Imigrante e Refugiado na vida socioeconômica da capital paulista. No 2º Programa Parlamento Cidadão, o projeto foi o de lei de Acessibilidade ao Deficiente Visual.

Sempre que falo sobre política na educação, a polêmica se instala. “Ah, mas vai ensinar política na escola para manipular os alunos?”, vociferam os mais extremistas (e aqui vou me permitir falar os de ‘direita’ e ‘esquerda’). O que poucos compreendem é de fato a importância do ensino a respeito da estrutura política nas escolas. O que faz um vereador, um parlamentar? Qual esfera de poder é responsável pela educação, segurança pública, saúde? Qual a diferença entre STF e STJ? Todas essas perguntas poderiam ser respondidas SIM em sala de aula e de maneira lúcida. Com mais conhecimento, o brasileiro teria a oportunidade de saber literalmente de quem cobrar ou de quem reclamar!

Para conhecer um pouco mais sobre o Programa Parlamento Cidadão, que acontece em São Paulo, o BLOG DO DANTAS fez uma entrevista com o autor do projeto, o vereador Ari Friedenbach, que você confere a seguir:

1 – Como surgiu a ideia do Programa Parlamento Cidadão?

Friedenbach: O Programa Parlamento Cidadão é um projeto baseado em outro programa aqui da Câmara Municipal, o Parlamento Jovem, que é feito para estudantes do ensino médio conhecerem a Câmara Municipal e serem vereadores por um dia. O Parlamento Cidadão foi adaptado para universitários.

2 – Qual é o objetivo? E qual é o perfil dos jovens participantes?

Friedenbach: Levando em conta que a maioria das pessoas desconhece o funcionamento da Câmara Municipal e que não se tem uma noção sobre o processo legislativo, o Parlamento Cidadão tem como objetivo transmitir esse conhecimento. Queremos explicar o funcionamento do legislativo da cidade. O perfil desses jovens, neste início, é de estudantes do curso de Direito. A ideia é expandir para outros cursos também. Começamos pelo curso de Direito porque eles já possuem uma facilidade e intimidade com a legislação e a Constituição. A ideia é estimular os alunos a pesquisarem mais sobre os serviços realizados aqui de forma que eles se interessem por isso.

3 – Quais são as tarefas que os jovens precisam cumprir para viver um dia de vereador?

Friedenbach: O processo funciona da seguinte forma: a gente criou uma rotina para os alunos que funciona em concordância com a faculdade deles, sem nenhuma influência econômica. É uma prestação de serviço minha para os alunos do curso que, futuramente, podem retribuir para a cidade toda. Primeiro são realizadas duas sessões em sala de aula. Na primeira aula, eu falo sobre todo o processo legislativo e como ele funciona, de uma forma genérica, para estimular a pesquisa de projetos de lei. São divididos em grupos para, juntos, criarem uma proposta para o município. Na segunda aula, eu realizo uma triagem com os alunos, onde eles apresentam os projetos e dou algumas sugestões de alterações, avalio se está bem estruturado e se já pode ser apresentado. O terceiro passo é aqui na Câmara Municipal. Junto com o professor da turma e alguns assessores jurídicos, simulamos a Comissão de Constituição e Justiça, onde avaliamos a constitucionalidade e damos seguimento ao projeto. A última parte é um encontro dos alunos aqui no Plenário da Câmara Municipal, onde eles têm a chance de serem vereadores por um dia. Eles, nessa etapa, apresentam os seus projetos para a turma toda, defendem suas ideologias, fazem críticas aos projetos dos demais e votam pela aceitação, ou não, deles. Isso para eles terem uma convivência parlamentar e entender, na prática, como funciona o processo de votação de um projeto.

4 – Algum jovem já se interessou pela carreira política ao longo do Programa?

Friedenbach: Claramente, não. Mas já percebi alguns talentos. Um ou outro, dentro dos estudantes, consegue se destacar pela forma de falar em público, defender sua ideologia, debater e argumentar muito bem. Eu me lembro de dois, em especial, que se saíram muito bem no Parlamento Cidadão. Acredito que até eles perceberam isso. É uma das coisas que espero com esse projeto. Quero despertar esses jovens para política, para o debate. Estamos carentes de novas lideranças e acredito que eles possam ajudar com isso.

5 – Na sua opinião, por que os brasileiros estão cada vez mais interessados por política?

Friedenbach: O momento político e econômico de crise que passamos desperta as pessoas para debate. Enquanto as coisas estão bem, o dinheiro está entrando e todo mundo tem trabalho, ninguém se interessa. Quando começam os cortes, o desemprego e aumentam os impostos, aí o povo desperta o interesse para entender o que está acontecendo e se posicionar. É um momento muito importante pra juventude.

6 – Quando ocorrerá a próxima edição e como os jovens podem participar?

Friedenbach: Hoje (19/05) faremos o fechamento da terceira turma do Programa Parlamento Cidadão. A ideia é expandir isso para outras universidades e outros cursos. A única questão é que temos uma limitação muito clara de disponibilidade e não temos como atender 10 universidades de uma vez. Ainda estamos verificando quando poderemos realizar o próximo, mas espero que seja o quanto antes.