Vende-se tênis da Prefeitura em país da piada pronta!

Humberto Dantas

11 de julho de 2016 | 07h10

Não consigo ver exagero, e por vezes fico com vontade de chorar quando se diz que o Brasil é o país da piada pronta. Se formos a fundo às razões que inspiram o uso do termo, o que temos são passagens lamentáveis. E nesses casos somos obrigados a dizer que o melhor é “rir para não chorar”. Infelizmente.

Num estado governado por um político chamado de Pezão – e que ele seja bem sucedido em sua recuperação médica – o que dizer de uma prefeitura que compra tênis para os estudantes, e os calçados são encontrados, com as logomarcas da cidade, sendo vendidos num shopping em Salvador, na Bahia?

Pois bem. Matéria de O Globo de junho, replicando conteúdo do Extra, conta um pouco o caso. Em 2015 a prefeitura de Magé, localizada na Região Metropolitana da capital, com seus mais de 227 mil habitantes, adquiriu por quase R$ 1,5 milhão a bagatela de 27 mil pares de tênis para os alunos da rede pública local. Cada “casal de pisantes” custou mais de R$ 50, e nessa quantidade, vamos combinar, talvez fosse possível fazer negócio melhor. Veja porque, sem entrar no universo do juízo de valor: os sapatinhos de Magé foram encontrados sendo vendidos por R$ 20 em um shopping center em Salvador, capital da Bahia, distante mais de um mil e quinhentos quilômetros de onde deveriam estar vestindo os alunos que reclamam que ainda vão à escola de chinelos. Isso mesmo: trocamos uma onça (imagem que ilustra a nota de R$ 50) por um mico – o desenho da nota de R$ 20. E que mico! Pois lá estavam, expostos, com logomarca da prefeitura e tudo o mais, os tênis na loja do centro de compras. Como se ao invés de Bamba, Conga, Montreal, Nike, Adidas ou coisas do tipo a onda agora fosse usar o “Magézão” estampado.

Procurada pela reportagem dos jornais do Rio de Janeiro, a atual gestão disse que não pode explicar detalhadamente o fato porque herdou recentemente o comando da cidade. O prefeito Nestor Vidal, do PMDB, foi cassado em abril pela Câmara Municipal – tendo sido fortemente apoiado em 2012 por Sérgio Cabral e Pezão, e eleito com mais de 72% dos votos. O afastamento se deu por 12 votos a zero em Comissão Processante que analisou um convênio que a Prefeitura mantém com uma clínica que tinha o prefeito como antigo sócio. Outros casos ainda seriam analisados, o que mostra que o antigo mandatário tinha mesmo motivos de sobra para ser retirado do poder. A questão é entender como os tênis caminharam tanto. Detalhe: no depósito da Prefeitura de Magé foram encontrados calçados com a logomarca da Prefeitura de Carapicuíba, cidade da Grande São Paulo. Uau! E entre os pares da estranha licitação de Magé, a numeração variava do 19 ao 46. Isso mesmo: 46. No estado governado pelo licenciado Pezão (PMDB), e na cidade em que o PMDB foi varrido do poder, o resultado só poderia nos sugerir efetivamente que vivemos no país da piada pronta.

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