Urnas, pastores e onze canos fumegantes

Eder Brito

09 de outubro de 2014 | 11h33

O nome de urna é algo muito importante para um candidato durante as eleições. É um símbolo que às vezes em uma ou duas palavras consegue congregar todo o conjunto de ideias de um futuro legislador. Também pode ser um fator essencial para a tomada de decisão do eleitor em relação a quem merece seu voto. O eleitor reclama que é pouco o tempo que temos para conhecer todas as ideias e a “orientação ideológica” de um candidato. Alguns nomes escolhidos para ilustrar a campanha de quem pleiteia um lugar ao sol nas estruturas do Estado tenta assumir a difícil missão de resumir as opiniões, características e anseios de nossos futuros representantes.

Deu certo com Elmano, o Vein Trabalhador (a grafia é essa mesmo: “Véin”), ex-candidato de 72 anos que agora é Senador da República, eleito com quase 63% dos votos válidos no Piauí. Não deu muito certo com a funkeira MC Bandida. Ela brigou com o Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal para manter seu nome artístico na urna. Sensibilizou Gilmar Mendes, ministro do Tribunal Superior Eleitoral que autorizou o uso durante o pleito. No fim das contas, a funkeira teve pífios 237 votos e não conseguiu se eleger deputada distrital.

Mas se seguimos considerando o nome de urna como um indicador dos anseios de nosso eleitorado, é possível traçar desenhos interessantes ao olhar para os deputados federais que trabalharão em Brasília a partir de 2015. O Brasil elegeu 11 pessoas que foram para as urnas carregando suas patentes ou profissões vinculadas a funções militares e da segurança pública. Elegemos quatro delegados. Dois deles foram os deputados mais federais em seus Estados. Meu xará, o Delegado Eder Mauro (PSD) teve mais de 265 mil votos no Pará e o Delegado Waldir foi o federal mais votado em Goiás, com quase 275 mil votos. Também elegemos dois cabos, dois capitães, um tenente, um sub-tenente e dois majores. Ao todo, serão 11 deputados federais neste segmento, representando o voto de quase 1 milhão e 400 mil brasileiros. Muita bala na agulha!

Também tivemos mais de 1 milhão e 100 mil eleitores direcionando seus votos a representantes que carregaram nomes “religiosos” para as urnas brasileiras. Três pastores, um “missionário”, um Padre e um “irmão” (o Irmão Lazáro, do PSC-BA) totalizando um time de 6 deputados que, caso não citem as sagradas escrituras durante o exercício de suas funções, tornarão o mandato bastante estranho aos olhos de quem os elegeu. Contabilizados apenas os votos do Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), Missionário José Olímpio (PP-SP) e Pastor Eurico (PSB-PE) são quase 790 mil eleitores esperando que Deus interceda pelos trabalhos do nosso Legislativo.

Esta é uma pequena amostragem, cujos números obviamente variariam se analisássemos outros segmentos e se também fossem consideradas as Assembleias Legislativas nos Estados. É claro também que existem outros profissionais da segurança pública e outros pastores, missionários e “irmãos” que não quiseram manifestar essa característica em seu nome de urna. “É uma análise rasa”, bradará alguma viúva da ditadura ou alguém com a bíblia em punho. Mas não é raso também o voto do brasileiro, que escolhe seus representantes considerando mais este tipo de critério do que quaisquer outros?

Mantendo o foco nos deputados federais eleitos, encerro com uma comparação. Frente ao mais de 1,4 milhões de eleitores que votaram em “militares” e 1,1 milhão que escolheram “religiosos”, tivemos 122 mil brasileiros votando em pessoas que escolher utilizar a profissão “professor” em seus nomes de urna. Professora Marcivânia (PT-AP), Professora Dorinha (DEM-TO) e Professor Victório Galli (PSC-MT) estarão em Brasília nos próximos quatro anos. São minoria. Outra minoria que é bom ter por perto. Ou não?

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