Uma realidade dourada? Ou simplesmente “sonhática”?

Humberto Dantas

11 de novembro de 2013 | 08h00

Em 2010, a “sonhática” Marina Silva concentrou parte de seu discurso na possibilidade de, uma vez eleita presidente, utilizar o que existia de melhor nos quadros de PT e PSDB para governar em nome de um bem maior chamado Brasil. Em 2013 ela insiste no discurso. Em 2014 ouviremos esse mantra ideal, vendido como facilidade. Como se isso fosse uma grande novidade, um ato de gênio, um insight dourado.

 

E por falar em ouro, desde criança ouço dizer que na ponta do arco-íris existe um pote repleto desse metal. Minha infelicidade, nesse caso, sempre esteve associada ao fato de que em São Paulo fenômenos naturais desse tipo não parecem ter começo ou fim em algo sólido – como um jardim, um bosque ou coisas do tipo. Em julho de 2012, pela primeira vez, vi um arco-íris que tinha começo e fim na terra. Um legítimo arco. Como estava de férias pela França, acelerei pela estrada rumo à riqueza. Nada encontrei.

 

Marina Silva talvez tenha mais sorte que eu. Mesmo porque, melhor do que encontrar um pote, seria encontrar uma lagoa de ouro. Um espelho d’água repleto do mais precioso metal! Lagoa do Ouro é uma cidade de 12 mil habitantes no interior de Pernambuco, mais especificamente no Agreste Pernambucano, pertinho de Garanhuns, onde nasceu o filho do Brasil. A emancipação de Lagoa data de 1958, o nome de 1938. Mas o que existe de tão precioso na cidade? Apenas a fazenda de João do Ouro, cuja lagoa ofertava pepitas capazes de enriquecer os sonhos dos garimpeiros. Fosse diferente, e houvesse pedra pra todos, a justiça não tentaria cassar o atual prefeito por compra de votos. Onde abunda ouro há razão para venda de posição na urna?

 

Quantos ficaram ricos com o ouro de João não é possível precisar, mas em 2012 um fenômeno tido como incomum enchia de esperanças os olhares de gente que pensa como Marina. PT e PSDB estavam unidos numa coligação para prefeito. A bem da verdade, em 1998 já haviam disputado os governos do Piauí e do Acre – estado de Marina, que talvez guarde dessa época seu desejo dourado. E foram separados pela artificial verticalização de 2002 e pela acentuação das rivalidades desde então. Essa foi, assim, a única associação entre partidos grandes que não ocorreu em pelo menos um dos 27 estados brasileiros em 2010 – até PT e DEM se juntaram no Maranhão! Mas tucanos e petistas estiveram aliados em mais de mil cidades em 2012. Nesse cenário, mais multicolorido que qualquer arco-íris, o caráter heterodoxo da eleição de Lagoa não representaria o tão “sonhático” pote de ouro da política brasileira? Não. De jeito nenhum. Não há nada de extraordinário em junções desse tipo, mesmo porque, o candidato tucano nessa eleição, que tinha como vice o petista Dr. Aderbal Jr chamava-se, simplesmente, Quebra Santo. E diz a sabedoria popular que santo quebrado não carrega sorte e não faz milagre. Resultado: quem venceu foi Marquidoves. Isso mesmo: Marquidoves, que diante da lentidão da justiça vai se mantendo com seu grupo no poder por mais alguns anos, a despeito dos desejados milagres das “sonháticas” alianças entre PT e PSDB…

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