Um ‘clássico’ eleitoral

Humberto Dantas

18 de outubro de 2013 | 20h12

Conflitos políticos podem ser associados a cores. Partidos têm códigos cromáticos. Por exemplo: sabemos que o PT e o PSB são vermelhos, que o PSDB é amarelo, e que o PV tem verde até no nome. Sabemos, inclusive, que ideologicamente isso faz sentido: liberais são azuis e socialistas vermelhos, ou se preferirmos, direita e esquerda são pintáveis sob tal lógica cromática.

 

Diante de tais aspectos, em setembro de 2012 causava surpresa aos forasteiros o fato de a cidade mineira de Pouso Alto exibir, em determinados bairros, bandeiras rubro-negras hasteadas em diversas residências. Alheio ao conflito eleitoral da cidade, quem não tinha a informação logo poderia pensar que o fenômeno Flamengo é algo que transcende os limites do Rio de Janeiro. Não é incomum lembrarmos que Cruzeiro e Atlético, raposa e galo, ou melhor dizendo: azul e alvinegro, são times que concentram torcida na capital. No restante do estado os cariocas mandam. Será? Mas ainda é assim? Pouco importa. A dúvida era saber: por que o Flamengo entusiasmava tanto os moradores da cidade naquele momento? Quanta besteira…

 

Nada de Flamengo! As bandeiras eram de um dos candidatos a prefeito nas eleições da cidade. Os moradores, espontânea ou compulsoriamente, se posicionavam por meio das cores que exibiam em seus quintais ou telhados. Sério? Sim. Tão sério que a prova era tirada ao cruzar uma ponte. A partir de então sumiam as flâmulas da “equipe da Gávea”, e como contraponto não tínhamos bandeiras tricolores representando o Fluminense, ou a cruz vermelha do Vasco. O que víamos eram panos azuis e amarelos. Boca Juniors? Nada disso! Eram os adversários políticos do grupo rubro-negro, no que poderia configurar um ‘clássico eleitoral’. E a qual ideologia pertenciam esses grupos? Esqueça. O vencedor das eleições, o situacionista Paulo do Lu, agregava ao redor do seu PSB: o DEM, o PSDB e o recém-nascido PSD. O segundo colocado Dudu, do PMDB, tinha o apoio de PP e PSC – em tempos históricos esses dois primeiros polarizaram o país na velha disputa MDB x Arena. E o terceiro colocado, com votação pífia, juntava PDT, PT e PTB. Assim, simples: a despeito de ideologias e permitindo associar as bandeiras locais, de forma desatenta, a um pouco comum clássico sul-americano entre Flamengo e Boca Juniors…

 

E se partidos e grupos políticos podem estar associados a cores, mas em termos locais é difícil considerar que tais aspectos estejam relacionados à ideologia, nos aproximamos ainda mais do aspecto futebolístico. Em meio ao conflito de Pouso Alto o portal Natividade da Serra registrava na cidade uma bandeira branca com a imagem de São Francisco de Assis ao centro. Era a casa de um morador que torcia pela paz, criticando o fato de a corrida eleitoral ter sido transformada em fofocas, brigas e discussões que tiravam do foco central da disputa o eleitor e seus direitos. Algo semelhante ao que temos assistido, faz anos, em alguns jogos de futebol: nada de bola, gols ou esporte…

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