Turismo pelas cidades do ministro

Humberto Dantas

17 de outubro de 2016 | 07h27

Em parceria especial com o gestor público, e pós-graduado em Ciência Política, Samuel Oliveira

 

O novo ministro do turismo, Marx Beltrão, é réu no STF acusado de falsidade ideológica quando foi prefeito em uma cidade alagoana. Ademais, não que isso seja uma acusação, mas pode ser sim um “belíssimo cartão de visitas”, o ministro é apadrinhado por Renan Calheiros, que a imprensa aposta ser a bola da vez no mundo das acusações que a justiça tem protagonizado nesse país. Nós sinceramente duvidamos e esperamos estar errados, mas a habilidade lisa do sujeito que desde o governo Collor “se arruma em Brasília” não parece ter limites.

Mas tudo bem. Vamos em frente. Nesse texto não vamos falar do fato de um ministro ser nomeado mesmo sendo acusado de um crime em investigação. Não, o caso aqui é de família, a de Beltrão.

Com dados do DIAP, nas eleições de 2014, o número de deputados federais eleitos com grau de parentesco com outros políticos, em diversos poderes, chegou a 16% da Câmara, ou seja, 86 deputados têm algum político eleito na família, o que influencia muito a votação desses parlamentares.

Já registramos diversas vezes a força dos frutos das mais diversas árvores genealógicas na selva chamada “política brasileira”. Por exemplo: dos vintes e três deputados federais com até 30 anos de idade, eleitos em 2014, apenas um não fez carreira a partir de outros parentes já investidos em cargos políticos. Vamos requentar o debate sobre isso? Também não. Partimos para outro velho conceito de poderio familiar na política: conquistar cidades. No plural! E quando falamos em um conjunto de cidades, em mais de uma, podemos falar em turismo! Pois bem…

Antes da “interpretável” Súmula Vinculante nº 13, que dificultou a nomeação de familiares em cargos de confiança, o jeito encontrado por “dinastias políticas” foi conquistar diversas prefeituras para acomodar os parentes. Já pensou no turismo eleitoral em época de campanha? É isso!

Mas, e o novo ministro? O que tem a ver com isso? Em tese, Marx Beltrão precisou se desdobrar para apoiar todos os familiares ao cargo de prefeito nas seguintes cidades alagoanas: em Jequiá da Praia, disputou Jeannyne Beltrão, irmã; em Coruripe (cidade onde Beltrão foi prefeito), Joaquim Beltrão, tio; em Feliz Deserto, Rosiana Beltrão, tia; em Penedo, Marcius Beltrão, primo; e, em Piaçabuçu, Djalma Beltrão, primo. Além disso, em cidade próxima das demais, mesmo estando em outro estado, Sergipe, um sobrinho disputou a eleição para prefeito em Ilha das Flores, Cristiano Beltrão. Será mesmo que Marx, com nome de quem briga contra a ditadura do capital, apoiou todos? Ou a família é rachada? Uma pista seria olhar o partido, mas anda difícil falar em partido nesse país: Marx é do PMDB de Renan, assim como Joaquim e Rosiana. Mas Jeannyne e Djalma são PRB e Cristiano é PSC, sendo que todos tiveram o PMDB como adversário. Sobra apenas Marcius, do PDT, que teve o PMDB como aliado…

Impressiona que todas as cidades ficam numa linha de 159 quilômetros partindo de Jequiá da Praia rumo ao sul, por vezes ladeando o mar e atravessando o deslumbrante rio São Francisco. As fotos e paisagens parecem fantásticas, roteiro belíssimo. Algo bastante emblemático e típico para um Ministro do Turismo, não fossem problemas profundos associados à ausência de bons indicadores sociais e à sua própria ficha na justiça.

Detalhe: todos os parentes foram eleitos, em todas as cidades! Pra completar a família faltou falar que Marx tem um irmão que é deputado estadual em Alagoas, João Beltrão. Se adicionarmos aqui o compadre senador, que é pai do governador, chegaremos em 2016 à família Calheiros, que conseguiu eleger para o quinto mandato seguido o prefeito de Murici (AL), mesma cidade que já foi gerida pelo filho e pelo irmão de Renan, onde agora desponta Olavo Calheiros Neto, sobrinho do presidente do Senado – nem vamos falar de Olinda-PE, que teve mais um irmão como prefeito por oito anos pelo Partido Comunista do Brasil. Pois bem, em meio a um roteiro turístico deslumbrante, fica difícil falar em “ditadura do proletariado”, a despeito da palavra Marx e dos comunistas, mas tirando o “proletariado” do termo, o que fica merece atenção!