Tupperware e o dia intermunicipal das mulheres

Eder Brito

11 de março de 2015 | 12h36

Quando eu era apenas uma criança magra e cabeçuda, correndo pelas ruas de Diadema nos anos 80, via meu pai participando dos eventos do Sindicato dos Metalúrgicos e o Partido dos Trabalhadores crescendo. Tinha certeza de que a democracia brasileira mudaria a partir dali. Era aquela a raíz de algo grande que viria a acontecer anos depois.

A história se encarrega de explicar tudo o que houve entre aquele momento e agora (e cada um se encarrega de julgar), mas eu ainda continuo olhando com carinho para a região do ABC paulista. E se ainda persiste a esperança de que sairão bons exemplos para a democracia nacional a partir daquela região, é preciso checar alguns “sinais vitais”. A participação da mulher na política é um destes indicadores básicos. Quando se aproximou o último dia 8 de março e a celebração do Dia Internacional das Mulheres tomou conta do discurso geral, foi natural dar uma checada na composição política feminina na região.

Decepcionei-me tremendamente. Juntos, os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra têm um total de 142 vereadores. Deste total, apenas 10 mulheres estão em cadeiras do legislativo. Isto significa que pouco mais de 7% das vagas de vereadores foram ocupadas por representantes do sexo feminino.

São Bernardo do Campo é o pior caso. Todos os 28 vereadores são homens. Quem “vence” no ranking é o município de Ribeirão Pires, com 3 vereadoras, num total de 17. Berenice da Silva (PMN), Cleonice Meira (PTN) e Diva de Souza (PR) dão o toque feminino ao legislativo da cidade. Diadema e Santo André empatam. Cada Câmara Municipal tem 21 vagas e apenas 2 mulheres atuando como vereadoras, respectivamente. Em Mauá, Sandra Regina (PMDB) é a voz feminina isolada perante 22 homens, mesmo desafio de Professora Magali (PSD), única vereadora de São Caetano do Sul.

Ângela de Souza Nunes (SDD) é a única mulher vereadora na Câmara Municipal de Rio Grande da Serra. Depois de três tentativas, conseguiu ser eleita em 2012, escolhendo “Ângela da Tupperware” como nome de urna. O nome também remete à minha infância no ABC. Lembro das “reuniões de Tupperware” para as quais minha mãe me arrastava, onde a anfitriã sempre demonstrava a um público (majoritariamente feminino) uma série de produtos da famosa marca de recipientes para conservação de alimentos.  Não é difícil deduzir que daí nasceu o capital político de Ângela.

Temo quem queira se aproveitar desta informação para fazer qualquer piada machista. O potencial representativo da vereadora nasceu de onde poderia ter nascido, provavelmente porque aqueles eram espaços que não interessavam a homem algum. Ângela fez bom uso da oportunidade e hoje representa não apenas as colegas de reunião, mas as mulheres de Rio Grande da Serra.

Logo no terceiro mês de seu mandato, já cobrava do executivo a implementação de algo novo para a cidade: um mutirão de saúde da mulher, principalmente para prevenir casos de câncer de mama e colo do útero. Não é impossível pensar que um homem também tivesse a sensibilidade de sugerir algo assim. Mas ela fez primeiro. Por quê?

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