Tião: o guerreiro imortal

Humberto Dantas

16 de setembro de 2013 | 14h12

Highlander estreou nas telas dos cinemas em 1986, quando os lançamentos ainda não eram mundiais e demoravam a chegar ao Brasil. Na narrativa, o ator Christopher Lambert vive um guerreiro do século XVI que se torna imortal. E encontra no personagem de Sean Connery respostas sobre como viver nessa condição, utilizando-se das dicas na metropolitana Nova Iorque dos anos 80 do século XX. O filme se repetiu tanto na TV que virou motivo de brincadeira. Entre algumas gerações o termo Highlander é sinônimo de imortalidade, ou de elevado tempo de duração.

Na política brasileira, da União aos municípios, existem personagens que poderiam ser facilmente chamados de Highlander. Não apenas por uma questão de idade, o que seria grosseiro, mas por pura demonstração de um excesso de dedicação à vida política que poderia ser explicado pelo subtítulo que o filme recebeu no Brasil: o guerreiro imortal.

Aguaí é uma cidade paulista com pouco mais de 30 mil habitantes próxima de Mogi Mirim, na mesorregião de Campinas, ou para sermos mais precisos, na microrregião de Pirassununga. E lá encontramos, em 2012, o candidato a prefeito mais velho do Brasil: Sebastião Biazzo, que completou 90 anos em janeiro de 2013. Sua idade pouco nos chama a atenção, pois como cidadãos que vivem em um país democrático, sabemos exatamente dos direitos que cercam aqueles que desejam representar a sociedade em que vivem. O perfil Highlander de Tião é motivado pela sua “vontade imortal” de governar seu povo. O primeiro mandato de prefeito começou em 1960 pelo PTB fundado por um Getúlio Vargas que lhe serviu de inspiração. Em 1969, sob o regime militar e filiado ao MDB do bipartidarismo artificial, teve início a sua segunda gestão. Já com a nova configuração do quadro partidário nacional, em 1982 elegeu-se novamente – dessa vez pelo PMDB. Em 1992, regido pela recém-promulgada Constituição Federal, Tião conquistaria mais um mandato, e em 2004 um novo compromisso com o povo. Se não bastasse toda essa história, o guerreiro imortal seria derrotado, por exemplo, nas eleições municipais de 2000 e 2008, sem deixar de contar que em 2002 figurou na lista de suplentes da má sucedida campanha de Orestes Quércia ao Senado.

Em Highlander, Lambert e Connery protagonizam a batalha final, vencida pelo primeiro, que adquire o poder de ter filhos e de ler o pensamento dos humanos. Perde, no entanto, a imortalidade. Teria sido esse o caso de Aguaí em 2012? O Highlander venceu o desafio derradeiro? Desta vez contra o então prefeito Dr. Gutemberg, que aos 41 anos buscava a reeleição. Diante da sexta vitória, Tião perderá a imortalidade? Aos que consideram a pergunta venenosa demais, fica o lembrete: Aguaí nasceu povoação e ao longo de sua história foi elevada à condição de distrito sob o nome de Cascavel, a cobra do veneno poderoso. Aos que tentam entender o jeitão Highlander de Tião, o nome de sua coligação formada por sete legendas pode ajudar bastante: “por amor a Aguaí”. Haja amor…

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