Tendência aguda

Eder Brito

02 de abril de 2014 | 15h07

Por Eder Brito

O município de Agudos em São Paulo tem mais de 115 anos de história, mas foi só depois de seu centenário que a família Octaviani começou a marcar o nome na história da cidade. José Carlos Octaviani foi prefeito por duas vezes, eleito em 2000 e 2004. O sobrinho Everton está agora no segundo mandato. Depois de uma disputa vitoriosa com outros candidatos em 2008, foi reeleito em 2012 como candidato único, sem adversários. Na mesma família está Auro Aparecido Octaviani. Auro é tio de Everton e irmão de José Carlos. É vereador no quarto mandato consecutivo, o mais votado nas últimas três eleições e atual Presidente da Câmara. O sonho, declarado em entrevistas à imprensa local é óbvio: tornar-se o terceiro Octaviani da cidade a ocupar a cadeira de Prefeito por dois mandatos consecutivos.

Não cabe a um único post fazer a análise desta seqüência de vitórias da família Octaviani. Primeiro, porque a família já encrencou o blogueiro Henrique Perazzi de Aquino, que tentou cunhar o termo “império octavianista” e acabou sendo processado pelo trio de gestores (discussões sobre liberdade de imprensa num post futuro?). Segundo, porque foram todos democraticamente eleitos pela população de Agudos. E terceiro, porque o espaço é pequeno para analisar todas as variáveis. A tentativa aqui é refletir sobre esta “tendência” na cultura política local dos municípios brasileiros. Seria Agudos o único exemplo do país em que um município vira o principal projeto político de uma família?

A análise também precisaria considerar o que a família fez pela cidade. Em junho do ano passado, por exemplo, a cidade virou bom exemplo na mídia nacional. Agudos é um dos poucos municípios que consegue oferecer transporte público gratuito. Uma frota de 16 veículos fica à disposição e atende cerca de 9 mil munícipes (a cidade tem uma população de 32 mil), diariamente, na faixa. O feito, que começou na gestão de Carlos e continua nas duas gestões de Everton, já levou o segundo até a palestrar por aí. Também seria preciso considerar que a cidade tem uma fábrica de cerveja da Ambev e uma da Eucatex, ambas campeãs de arrecadação de tributos que fariam os olhos de qualquer gestor público brilhar. A cidade ainda tem atividade pecuária forte, uma grande quantidade diária de leite, pronta para exportação e até uma inusitada produção de bicho-da-seda. Como não querer fazer um projeto político de longa duração, que permita aproveitar o uso de todo este potencial?

A oposição vem tentando se armar contra isso, mas parece difícil. Luciano Durães, vereador no segundo mandato tenta explicar as dificuldades. Em 2004, já com a cidade sob o comando dos Octaviani, teve uma tentativa frustrada de entrar na Câmara. Filiado ao PSDC, teve apenas 267 votos, mais de mil a menos que Auro Octaviani. Em 2008, “pegou o jeito” de fazer campanha. Mudou de partido (migrou para o PR) e percebeu que só a tradição do trabalho junto à comunidade não basta. Precisava “pagar umas equipes” para ajudar na divulgação se quisesse ser eleito e fazer frente à força da máquina. Conseguiu entrar, com 551 votos. Em 2012, desta vez filiado ao PP, conseguiu 1043 votos e foi o segundo mais votado do município, ficando atrás apenas de… Auro Octaviani. Mesmo já tendo acumulado até um período de Presidência na Câmara, ainda reclama de dificuldades. “O poder de indicar para cargos e conseguir nomeações continua nas mãos do Prefeito. A gente teve que lutar para conseguir que cada vereador tivesse direito a um assessor. Não dá pra trabalhar sem equipe. É complicado”, explica.

O intuito, no final, é refletir: este tipo de processo é natural? É bem-vindo?O quanto a manutenção de um mesmo grupo por muito tempo no poder é algo saudável do ponto de vista da democracia representativa?  O fato de que a população de Agudos legitima tudo isso com o voto diz alguma coisa? Como isso influencia até na qualidade do trabalho da oposição? Dúvidas “agudas” de uma tendência que não é exclusividade do centro-oeste paulista.