Simplemente Juanita

Humberto Dantas

27 de outubro de 2014 | 07h11

Foi num debate sobre a justiça eleitoral que aprendi mais uma, dessa vez na brilhante exposição da doutora em Ciência Política pela UnB, Tatiana Braz Ribeiral – a quem posso chamar tranquila e carinhosamente de amiga. Estávamos na escola de Direito da FGV de São Paulo e ela falava sobre eleições no México. Foi quando veio à tona a figura das Juanitas. Quem?

Logo pensei que fosse uma candidata qualquer, e fui para o Google pesquisar. No Brasil, tivemos Dona Juanita, candidata à prefeita em Nova Cruz, Rio Grande do Norte, em 1968. Mas isso é longínquo e distante demais. Do que Tatiana estaria falando? Na lista com cerca de 25 mil nomes de candidatos nas eleições de 2014: nada de Juanita. Em 2012 nada também. Foi quando pensei em abrasileirar o termo e busquei por Joanita. “Tá lá!”, encontrei a Joanita do PSL, candidata à deputada estadual no Espírito Santo. Com o apelido de “Baiana” teve 85 votos e passou longe de uma vaga. Assim: por que Tatiana teria vindo de Brasília e tocado em assunto tão irrelevante?

Segui firme em minhas buscas e levei a “Joanita” pras eleições municipais de 2012. Em mais de 450 mil nomes ela certamente apareceria com maior destaque. E de novo: acertei! Lá estão 16 candidatos (OS) ao cargo de vereador em cidades, lançadas por diferentes partidos. Do PT aos PSDB, do PV ao PSC. Na Paraíba são quatro, na Bahia três. Professoras são duas, inclusive uma eleita, pelo PT, em Baixa Grande, Bahia. É baiana também a candidatura que mais chamou a minha atenção: Joanita do Barranco. De onde? Deve ser um bairro ou ponto conhecido da cidade. Esqueça. E por fim encontrei até o Bosco. E daí? Calma! O “Bosco de Joanita”, que deve ser a mãe, a avó, a fiadora eleitoral ou uma região da cidade paraibana de Soledade, ou Soledad? Sei lá. Mas ainda tá difícil sustentar um texto sobre política pra falar de Joanitas ou Juanitas.

Assim, voltei pra versão em espanhol e pensei em Juanita Castro, irmã dos donos da ilha que se diz comunista, mas empresta aos seus proprietários o status de reis – ao menos no modo de viver isso é inquestionável. Mas logo percebi que não era nada disso. Tatiana falava do México. E por lá Juanitas são símbolos, apelidos de uma prática de como driblar leis e acordos internacionais que têm como objetivo adensar e elevar a participação feminina na política. Seria quase uma “Lei de Gérson” dos partidos. No Brasil, tratamos dessas vantagens que as legendas levam em post recente. Em nosso país, partidos são obrigados a terem chapas com um mínimo de 30% do gênero minoritário em suas eleições proporcionais. Assim, num conjunto de 15 candidatos a vereador em uma dada cidade, algo como cinco precisam ser mulheres, ou homens, pois a relação de gênero nunca pode ser mais distorcida do que 2×1 (arredondando). No Brasil, dessa forma, vimos candidatas sendo lançadas ao cargo de vereadora e deputada apenas para cumprirem tabela. Só para se ter uma ideia do fenômeno, em 2014 tomei as listas de resultados de todos os estados do país e olhei os candidatos a deputado federal que tiveram entre 1 e 10 votos. Ignorei o zero porque as razões pra isso superam o desprezo do eleitorado. Encontrei 17 nomes em 11 estados. Quantas mulheres? 16! Pitada do problema. Mas voltemos ao México. Pela lei local mulheres têm garantidas vagas em eleições majoritárias, lançadas por seus partidos. Nesse tipo de disputa existe sempre a figura do suplente. Pois bem. Senhoras menos conhecidas são apresentadas e respaldadas por suplentes, do gênero masculino, que fazem a campanha e dão sustentação à postulante com seus nomes fortes. Quando ela vence, toma posse e logo entrega o cargo para seu fiador. Mas quem são essas mulheres? Não importa, não é nelas que os eleitores votam, mas sim em seus suplentes. Por aqui não seriam exatamente Joanitas, mas “Marias Ninguéns”. Por lá, simplesmente: Juanitas, numa cultura tão oportunista quanto a nossa.

Ps. além de ilustrar o fenômeno descrito, o título do post também é uma homenagem a TODAS as novelas mexicanas que vi anunciadas no Brasil até hoje.

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