Sem medo de ser feliz

Humberto Dantas

03 de fevereiro de 2014 | 08h19

Pode ser que a maior virtude de um país que se pretenda democrático seja a liberdade de expressão, mas até nesses casos parece absolutamente defensável a noção de limites. Sem eles as pessoas parecem à vontade para apresentarem aquilo que bem desejam ao mundo. Dia desses ouvi de um político das antigas, em tom de brincadeira, que hoje tudo está muito diferente em relação “à sua época”. Ele nasceu num tempo, segundo sua “piada”, em que fumar era bonito, e assumir a homossexualidade era feio – não pense que ele utilizou esse segundo termo de forma tão elegante. Depois da pérola riu folgado. Só parou quando percebeu que estava rindo sozinho. Aí optou por explicar: “hoje está tudo invertido”. E voltou a rir. Desistiu quando perguntou se eu não tinha achado graça, e se eu era homossexual. Qual a graça?

 

Mais alguns dias e li na coluna de um “famoso” jornalista, ex-deputado federal tucano, que ajudou o PDS na década de 80, se vestiu de brizolista e trabalhou na comunicação do governo FHC, que nada tem contra os homossexuais: “essa doença que sempre existiu, desde que o mundo é mundo”. Doença? Como assim? Só se for alguma anomalia intelectual do autor da frase. Mas talvez seja o caso de darmos um desconto. Ele nasceu no tempo da piada do político do parágrafo anterior. Para completar, estudou em escola religiosa, teve educação rígida, nasceu no Rio Grande do Sul na década de 30 e deve mesmo pensar na homossexualidade como doença. Perceba como é fácil ser preconceituoso quando caracterizamos alguém. Quem disse que gaúchos, religiosos e cidadãos mais velhos não podem conviver tranquilamente com a homossexualidade? Não sei, e sob a armadilha do preconceito fica a pergunta: qual a graça?

 

Para nossa sorte a cidade do jornalista, Cachoeira do Sul, parece mais tolerante. Ao menos é isso o que sugerem os nomes de algumas das coligações eleitorais formadas para os pleitos de 2012. Por lá cinco candidatos, e dois na tradicional polarização nacional entre PT e PSDB – isso no Rio Grande do Sul é incomum. Entre os tucanos, que no estado elegeram nosso ex-deputado federal algumas vezes, a aliança foi chamada “Novas ideias por uma cidade melhor”. Que ideias novas? Na proposta de governo registrada no site do TSE o máximo que se fala em termos de diversidade sexual é sobre a garantia de direitos humanos – algo expressivamente amplo e respaldado por alguns pontos sobre cidadania.

 

Já entre os petistas um batismo mais ousado: “sem medo de ser feliz”, talvez lembrando a campanha de Lula em 1989. A aliança com o PSC e o PHS fez do agricultor Neiron Viegas o vencedor. Em seu programa, as linhas gerais apontam para a garantia de afirmação de direitos. E mesmo que de forma discreta lá está, desafiando a posição de um ilustre filho da terra, o “estímulo aos mecanismos de participação e criação do Conselho Municipal de Juventude, com ampla participação da amplitude das juventudes, como jovens rurais, mulheres (…) movimento LGBT etc.” Só jovens LGBT? Paciência! Diante do que pensa o ex-deputado federal Adroaldo Streck sobre “essa doença”, tal posição corre o risco de ter entrado para o rol das maiores ousadias da campanha: “sem medo de ser feliz”.

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