Santo da casa faz milagre?

Humberto Dantas

20 de setembro de 2013 | 11h44

O conceito de opinião pública é mais complexo do que uma associação exclusiva com a pauta da imprensa. A despeito do que seja, e qual a forma correta de tratá-lo, o fato é que políticos gostam de transmitir à sociedade olhares próprios sobre o tema. Lula disse que não precisava da opinião pública para se comunicar com o cidadão. O que estava em sua mente quando afirmou isso eu não saberia dizer. Em declaração igualmente questionável, o deputado federal gaúcho Sergio Moraes (PTB) bradou, faz alguns anos, que se lixava para opinião pública, pois parte do que os críticos diziam não era compreendido por aqueles que o elegiam – em 2010 ele elevou em 13% sua votação e fez seu filho deputado estadual.

A Câmara dos Deputados é composta por 513 partes que chegam aos gabinetes por meio de resultados que podem ser distritalizados. Assim, é possível que um pequeno conjunto de cidades eleja seus preferidos para os parlamentos estaduais e federal. Não há grandes problemas nisso, e os debates sobre a reforma política podem tratar tal aspecto de forma aprofundada. A questão é saber como Moraes se mantém no poder em termos locais. Pois em linhas gerais ele seria capaz de dizer: “que se lixem os mais de 140 milhões de eleitores no país, eu não preciso de tudo isso pra me consagrar”.

Santa Cruz do Sul tem 118 mil habitantes e é conhecida por ter a maior Oktoberfest do Rio Grande. Pouco importa se existe relação entre o estado etílico da sociedade durante o evento e o dia das eleições – cronologicamente próxima da maior “festa de outubro” gaúcha. O fato é que em “sua cidade” Sergio Moraes foi eleito prefeito em 1996 e 2000, e em 2010 ficou com 41% dos votos para deputado federal. Seu filho levou 15% das preferências na corrida à Assembleia. E como em 2004 a família não fez seu sucessor na prefeitura, em 2008 se esforçou para eleger Neiva Terezinha Marques para o posto. Não tente entender quem é Neiva. Mas procure por Kelly Moraes e você chegará à esposa do deputado, que por coincidência era a prefeita Neiva, ou melhor, Kelly. Era? Pois é: em 2012 ela perdeu a eleição… Por que será?

No início de 2010, após as declarações polêmicas do maridão e em pleno ano eleitoral, Kelly também desafiou parte da opinião pública ao revelar que pretendia instalar, de acordo com o jornal Zero Hora, uma estátua de São João Batista na cidade. O modelo da face do santo, segundo a oposição, lembrava muito a de Sergio Moraes, que pouco se importa com a opinião pública, sobretudo quando o assunto envolve Batista, ou seja: o homem que batizou Jesus Cristo! Então qual o problema? O problema é que santo da casa não faz milagre, diz o povo por aí.