Santo Antônio: o vereador perpétuo

Humberto Dantas

17 de agosto de 2015 | 06h51

É impossível separar a história do Brasil da religião. Isso ninguém poderá fazer, pois principalmente no caso da Igreja Católica a separação oficial só ocorreu no século XIX, ou seja: a História do Brasil terá padres, igrejas, líderes etc. Inclusive alguns desafiaram a lógica institucional formal, e o melhor exemplo é descrito por Lira Neto na obra Padre Cícero (Cia. Das Letras). Guardo esse livro como o melhor escrito que já li sobre cultura política brasileira até hoje.

 

Pois bem, ao longo da parte final do século XX e do início do século XXI o Brasil tem tentado separar melhor a religião do Estado. Por meio de uma lógica laica a primeira grande conquista está associada ao respeito à diversidade religiosa que aparece de forma muito clara na Constituição Federal. Nas repartições públicas, no entanto, ainda aparecem símbolos de nosso expressivo apego católico. O debate por vezes esquenta e a complexidade ganha contornos extraordinários. Alguns deles tão expressivos que chego a me perguntar se efetivamente deixamos a Idade Média e aportamos em instante mais atual. O exemplo que trago aqui não é novo, mas merece registro nesse blog de curiosidades políticas locais. Trataremos aqui do santo que virou vereador. E não estou contando a história de São Thomas More, dito o santo dos políticos éticos – o que para muitos, em tom de ironia, é fantasia expressiva. Estou falando de Santo Antônio, conhecido por aqui como casamenteiro, lisboeta que perambulou pelo mundo no século XII e foi canonizado apenas 11 meses após sua morte como o “Santo de todo o mundo” – uma linda história. Por aqui, no Brasil, para além de tudo o que recebe de adorações ele tornou-se vereador, algo difícil de ser arrolado na lista dos milagres que promoveu. E durante 14 anos recebeu até salário.

 

Igarassu é um município com 480 anos e população de cerca de 110 mil pessoas no litoral de Pernambuco. A importância Católica é incontestável, e por lá está a igreja mais antiga do Brasil, datada de 1535 homenageando os santos Come e Damião. Também está lá o primeiro mosteiro franciscano em homenagem a Santo Antônio. Seu patrimônio histórico é relevante, mas novamente, a despeito da impossibilidade de separarmos Estado e fé em termos históricos, tradição deve ter limite. Em Igarassu, no século XVIII, quando ainda o Brasil não havia afastado legalmente Igreja e Estado, Santo Antônio recebeu o título de protetor da Câmara da Vila de Igarassu. Mas foi em 1951, para restituir lógicas que se perderam com o tempo e com as mudanças institucionais do país, que ele passou a ser considerado “vereador perpétuo” – o que nada tem a ver com os senadores vitalícios de alguns países. E é isso mesmo que você leu: para sempre, forever. E para fortalecer ainda mais o laço, até vencimento anual foi concedido para a compra de pão aos pobres. Em 1994, para adensar o compromisso, um salário mínimo mensal passou a ser concedido para o santo. Mas quem o recolhia? Simples: uma freira, ou seja, a representante do representante perpétuo que investia o ordenado em obras de caridade. Por 14 anos a remuneração foi concedida, até que em 2008 o Ministério Público Estadual, um órgão aparentemente mais laico que o parlamento local, sugeriu o fim do benefício. Os vereadores, muitos contrariados, colocaram fim à ajuda, mas de forma ALGUMA revogaram o título de “vereador perpétuo” concedido ao santo. Isso é perpétuo!

 

E recentemente, em documentos da Câmara, percebe-se que essa palavra tem mesmo o peso da eternidade. O edil José Edson Martins dos Santos, o Edinho, eleito em 2012 pelo PMN depois de uma suplência em 2004, assinou duas relevantes matérias em 2013 para reforçar o compromisso da cidade com seu representante político eterno. Na primeira, datada de 05 de setembro, solicitou que em todo dia 13 de junho ocorra reunião solene na Câmara em homenagem ao santo. O texto de destaque tem requintes fantásticos. Ao se referir ao “colega de parlamento”, Edinho destaca: “que esta casa tem como vereador perpétuo o único reconhecido do mundo”. Esse adendo planetário é digno de orgulho? É isso? Sim, pelo menos em Igarassu. Na matéria seguinte, do final do mesmo mês de setembro, a ideia é transformada em projeto de resolução e aprovada, ou seja, Edinho não estava delirando sozinho. Assim: viva a eternização da reunião solene, em 13 de junho, da homenagem ao vereador perpétuo! No país que se notabiliza por perpetuar a eterna relação: Estado e religião.

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