“Sacanagem” pequena

Humberto Dantas

28 de julho de 2014 | 08h00

Quantos famosos tentam se eleger com base em seus dotes artísticos ou midiáticos? Depois da explosão do fenômeno Tiririca, e da força demonstrada pelo finado Clodovil, parece que a tese se reforça. Ainda mais? Pois é. Busque na web a lista de famosos e verás um verdadeiro exército de postulantes em busca da tática perfeita. O evento não se restringe ao Brasil. Os Estados Unidos foi presidido por um ator de Hollywood, Ronald Reagan, e a Califórnia, mais recentemente, governada por Arnold Schwarzenegger. São apenas alguns exemplos de fenômeno comum, que envolve também participantes de filmes, digamos assim, mais profundos ou intensos. No mercado, são proibidos para menores e conhecidos como pornográficos. Assim, ator ou atriz de filme pornô também pede votos. E como a imensa maioria do eleitorado costuma ter mais de 18 anos, os públicos coincidem!

 

A mais famosa nessa lista é a italiana Cicciolina, batizada Ilona Staller. Notabilizada por centenas de atuações em “romances profundos” exerceu o cargo de deputada (sem trocadilhos, por favor), eleita pelo Partido Radical, entre 1987 e 1992. No confuso sistema eleitoral italiano, repleto de idas e vindas (e isso nada tem a ver com o ritmo de seus filmes) o cargo foi conquistado na lista flex – um modelo de lista fechada em que nomes avulsos bem votados podem “furar a fila”. Seu sucesso, inclusive, foi utilizado nos debates da Câmara dos Deputados brasileira para justificar a não adoção do modelo por aqui – olha o nível dos argumentos! Mas paciência. O fato é que recentemente ela sonhava em ser, aos 61 anos, e três décadas de militância política, vereadora em Roma. O mesmo desejo parlamentar movimenta o brasileiro Kid Bengala, ator que carrega apelido condizente com seu potencial fálico. Nas eleições de 2008 buscou vaga pelo PPS na capital e ficou com 902 votos. Agora no PTB planeja sucesso maior com slogans do tipo: “vote em mim se não o pau vai comer”. Quanta elegância! Melhor manter distância – considerável.

 

Entre as mulheres, em 2008, foi a vez de Rita Cadillac (PSB) tentar uma vaga na Câmara de Praia Grande-SP, sem sucesso (378 votos) e a despeito do seu potencial cinematográfico. A atriz Gretchen, sempre sensual em seu rebolado, fez filmes pornográficos em 2006 e em seguidas deu declarações de arrependimento. O fato é que para mudar de ares, também em 2008, buscou a prefeitura de Itamaracá-PE. A campanha começou animada, ao menos é o que mostra o documentário “Gretchen Filme Estrada”. Mas a personalidade forte da moça e a falta de rebolado para lidar com a política brasileira mataram seus desejos. O último comício, na praça vazia, é deprimente para quem a viu vender mais de 12 milhões de discos e atuar nos palcos dos programas de TV dos anos 80.

 

Buscando motivação em deslizes do prefeito, que assumiu ser alcoólatra e esteve envolvido com o consumo de crack que o levou para uma clínica em abril, a atriz Nikki Bens e seus mais de 200 filmes pornôs é a estreante nesse seleto grupo que enfrenta as urnas. E a moça promete chacoalhar as eleições de Toronto, no Canadá. Se a sua candidatura de fato se concretizará para o pleito de outubro fica a dúvida, mas que as provocações começaram, isso é verdade. Ela assume que pelo menos é transparente, uma vez que Rob Ford esconde a questão das drogas e afirma ter melhorado do alcoolismo após os dias internados. De certeza apenas o fato de que diante de tudo o que se fala sobre política esse tipo de “sacanagem”,vivido no cinema, parece bem suave… Sabe nada inocente!

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