Refletindo graças ao palhaço

Camila Tuchlinski

22 de agosto de 2014 | 08h00

Ele se candidatou perguntando se o eleitor sabia para que servia um deputado federal. Além disso, o bordão ‘pior do que tá não fica, vote Tiririca’ ficou na memória dos brasileiros, que por vezes davam risada das propagandas eleitorais, por vezes se indignavam.

Enquanto eu passeava pela avenida Paulista no último fim de semana, fui abordada por um grupo de militantes vestindo roupas coloridas. Percebi que tratava-se de panfletagem eleitoral, porém não identifiquei rapidamente o partido. Ganhei uma espécie de cartão de visitas com a frase ‘Tá cansado da política?’. Adivinha de quem era? Tiririca!

Em um primeiro momento, dei risada. Aí me lembrei da campanha de 2010, com todos os bordões que já citei aqui. “Qual é mesmo o partido do Tiririca?”, indaguei. Impossível saber, pelo menos olhando o cartão. Confesso que nem com lupa dá para identificar! E olha que dei zoom na foto. O logo do partido que você está vendo no canto esquerdo inferior do cartão não foi alterado. Não foi colocado mosaico na imagem como nos números do candidato e dos apoiadores. E nem precisou… De 90mm de largura de cartão, a campanha reservou cerca de 1mm de espaço para o partido!  Tenso.

Arte: Tcha-Tcho

E graças ao palhaço, comecei a refletir sobre a ‘tal da política’.

No dia 3 de outubro de 2010, Tiririca se tornou o deputado federal mais votado do Brasil, com 1.348.295 de eleitores. Mais de um milhão de pessoas o escolheram para ser parlamentar! Já ouvi especialistas em Ciência Política dizerem ‘ah, mas foi o voto de protesto’, ‘ah, mas ele é famoso’, etc, etc, etc. Mas será que foi isso mesmo? Como a política não é exata como a Matemática, dificilmente teremos a resposta.

Se você perguntar aos eleitores dele quais foram os projetos ou de quais comissões participou durante esses anos de mandato, poucos, mas pouquíssimos saberão. Aliás, a falta de acompanhamento político é ainda um hábito muito triste do brasileiro, né? Bom, não votei nele, porém fiquei curiosa e fui atrás de algumas informações.

Em 2012, ele foi um dos nove deputados que participou de todas as 171 sessões de votação na Câmara. Só um detalhe: são 513 no total! Onde estavam os outros representantes da população? Para não ficar só no Tiririca, outro ‘deputado-celebridade’ Jean Wyllys, aquele que ficou conhecido por ter vencido a quinta edição do reality show Big Brother Brasil, participou de mais de 80% das sessões. O cidadão comum que trabalha em uma empresa, por exemplo, precisa bater o ponto. O autônomo, se faltar um dia, tem desconto no salário. O empresário, se não vai à uma reunião de negócios, perde oportunidade de lucro. Enfim, o que justifica a ausência constante da maioria dos deputados? Nem se todos ficassem gripados ao mesmo tempo!

Outro bordão de Tiririca na campanha de 2010 foi: “Quero ser eleito deputado federal porque quero ajudar os mais necessitados, inclusive minha família”. Ao ser eleito, Tiririca ajudou não só a família como os amigos. Os humoristas José Américo Niccolini e Ivan de Oliveira, que criaram os slogans da campanha, foram nomeados como secretários parlamentares e receberiam os maiores salários do gabinete, em torno de 8.000 reais, revelou a Revista Veja, em abril de 2011. Essa pegou mal. Agora, se o jornalista fizesse um real ‘pente fino’ na Câmara, quantos deputados mais empregam amigos, primos de segundo grau, cunhados, etc em seus gabinetes a salários generosos? Talvez 100% dos parlamentares já beneficiaram alguém.

Tiririca também foi tema de reportagem do Financial Times no ano passado. No artigo intitulado ‘O palhaço brasileiro perdeu o sorriso’, a revista revelou que ele estava decepcionado com a atuação da Casa onde trabalha. “Você passa o dia inteiro fazendo nada, só esperando para votar alguma coisa enquanto as pessoas discutem e discutem”. Com tantos problemas e demandas no País, não é possível que tenha parlamentar ‘sem fazer nada, só esperando para votar alguma coisa enquanto as pessoas discutem’. Da discussão nasce a luz, não é? Só que, na Câmara dos Deputados, nasce também a procrastinação política de um sistema que precisa de reforma já!

E isso me faz pensar imediatamente na tal reforma política, termo levantado durante as manifestações de junho do ano passado com mais vigor e usado agora na ‘modinha’ da campanha eleitoral por quase todos os candidatos. Será mesmo que os engravatados responsáveis por elaborar nossas leis serão capazes de legislar sem causa própria?

‘Tá cansado da política?’ Na verdade, não. O brasileiro está cansado da má administração política. Da corrupção. Da impunidade. Do toma lá, dá cá.

A política é salutar! O ‘jeitinho brasileiro’ de alguns parlamentares e seus capangas, não.