Quaquaraquaqua quem riu?

Humberto Dantas

07 de fevereiro de 2014 | 08h22

Ele diz que seu apelido vem da infância, e guarda relação com patos, pois gostava de ficar perto da lagoa. Mas quem são os patos? Os biólogos responderiam se tratar de um ser competente na forma como se locomove. Voa, anda e nada com certa desenvoltura. Não é nenhum “triatleta”, mas veja que com toda a tecnologia que o homem possui ainda não fizemos algo razoável que ande, nade e voe. A natureza fez. Percebe? Assim, pato na política poderia ser visto como alguém capaz de fazer muitas coisas, mas não é bem isso que o dito popular afirma. Pato na nossa sociedade é otário. Mas estamos, definitivamente, longe de falar de um otário. Muito longe!

 

Assim, seria o apelido de nosso personagem um riso debochado? Washington Luiz Cardoso Siqueira é, na verdade, Washington Quaquá. Prefeito de Maricá reeleito para o segundo mandato pelo PT, presidente estadual da sigla e um dos principais articuladores da saída da legenda do governo de Sergio Cabral em nome de um voo mais independente de sua sigla em torno do senador Lindbergh Farias – ambos têm história em comum. Desde a passagem pelo executivo de cidades do Rio de Janeiro – Farias foi prefeito de Nova Iguaçu por dois mandatos – até a atuação na geração Caras Pintadas que contribuiu para a queda de Collor em 1992. Outras coincidências devem certamente existir, mas algo chama a atenção na multifuncional presença de Quaquá. Seria seu riso debochado ou uma vocação para pato?

 

Em matéria recente do jornal O Estado de São Paulo, o prefeito dá a entender que não milita mais no campo de uma esquerda radical capaz de defender a tomada do Palácio de Inverno como o ápice de uma revolução. Para ele, a questão é romper. Como o que? Com a ética? Com a lei? Fica a pergunta, mas é fato que seu discurso sugere tais afrontas de forma clara. Primeiro porque compreende ser legítimo o uso da máquina pública na tomada da presidência estadual do seu partido. Quando candidato ao comando do PT ninguém acreditava nele, mas bastou empregar os companheiros na cidade e o jogo terminou ao seu favor. Falam em 70 cargos: quaquá, ele debocha afirmando que é mais. Além disso, quaquá, Ele entende que se tivessem lhe oferecido dinheiro do mensalão teria aceito. O problema é que era “pato feio” no partido, mas debochando novamente pede o fim da hipocrisia, sugerindo naturalidade no mensalão, quaquaquá. Defensor de constituinte pra reforma política e financiamento público de campanha o prefeito parece realmente crer no papel do dinheiro público para tocar as coisas privadas. Assim fica fácil. Difícil é acreditar que esse pato tenha alguma coisa de pato no sentido pejorativo do termo. Não tem nada mesmo. Mas e o apelido de infância? Hoje se justifica por sua capacidade multifuncional de voar, andar e nadar? Ou melhor: de administrar uma cidade, presidir um partido e defender uma campanha ao governo estadual, ou de sua naturalidade de rir à toa das perguntas que lhe fazem sobre política? Se a alternativa mais ilustrativa for mesmo essa última, fica então a dica: que se torne Washington Quaquaraquaqua, pois como cantou Elis Regina, ele certamente perguntaria ao término do riso: quem riu? E responderia rapidamente: fui eu!

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