Quanto vale um prefeito? Dois dólares pagam?

Humberto Dantas

21 de setembro de 2015 | 07h40

Com colaboração mais que especial, e inspiração absoluta de Bruno Souza da Silva

 

Pesquisas mostram que é cada vez mais comum a falta de confiança dos cidadãos em políticos e órgãos de representação. Levantamento do Ibope mostra que o quadro de 2015 é o pior desde 2009 – início da pesquisa. Naquele ano, 53% dos brasileiros diziam confiar no “governo da cidade onde mora”, o índice bateu em 33% agora. O que significa tamanha crise? Distanciamento entre representantes e representados? No tranquilo município de Itápolis, interior de São Paulo, o ex-prefeito Bento Ary, que mandou entre 1993 a 1996, até conversava com os cidadãos. No entanto, com uma condição: cobrava dois dólares. Oi? É isso mesmo: alguns moradores da cidade com pouco mais de 42 mil habitantes contam o causo em tom jocoso. Afirmam que ele gostava das verdinhas. Corrupção? Difícil imaginar que alguém se vendesse por tão pouco, ou seja, o lance parece soar mais como um hobby incomum.

Naquele contexto, Itápolis ainda se destacava pela produção de laranja. E como em tantas outras pequenas cidades brasileiras, havia carências estruturais que demandavam muito mais que os poucos dólares arrecadados nas conversas informais do prefeito. A prosperidade, no entanto, chegou. Como resquício do passado, ficaram algumas casas grandes com uma modesta plantação de laranja ao fundo e seus tratores guardados nas imensas garagens. No presente, a cidade possui atividade econômica concentrada no setor de serviços e na agroindústria. Conseqüentemente, a configuração das elites locais foi sendo alterada, e os custos políticos para governar e se manter no poder, também. O ex-prefeito cassado em 2014, Júlio César Nigro Mazzo, o “Mazzinho”, que o diga. Itápolis consta na lista de 47 municípios que passaram por eleições suplementares devido à cassação de prefeitos entre 2014 e 2015.

Nas eleições de 2012 a coligação que apoiava a reeleição de Mazzinho (PRP) contava com doze partidos e obteve 55,6% dos votos válidos. Seu vice, José Luis Kawachi (PSDB), é conhecido por lá como Zequinha Kawachi – guarde esse nome! Em oposição a essa candidatura, a coligação “Itápolis pode muito mais” apresentou o nome do Prof. Antonio (PMDB), tendo em sua composição seis partidos, dentre eles o PT (que mais tarde seria uma pedra no sapato de Mazzinho). A chapa atingiu 44,4% dos votos.

A coligação derrotada entrou com recurso no TRE por uso ilícito de propaganda política do candidato à reeleição. De acordo com a lei é vedado ao agente público em campanha o uso de propagandas sobre ações do seu governo em veículos de comunicação até três meses antes do pleito. Mazzinho, no entanto, havia utilizado o “Semanário de Itápolis”, jornal oficial e de distribuição gratuita, para veicular propaganda de serviços e obras realizadas pela prefeitura. Isso foi suficiente para a justiça ser acessada. E antes mesmo do veredito final, o principal opositor na Câmara, o vereador Avelino Cunha (PT), insistiu na irregularidade, mobilizou a imprensa, ou seja: causou o que a oposição deve causar. O desfecho foi fatal: por unanimidade no TRE-SP, prefeito e vice foram cassados e, após recurso negado no TSE, tiveram que deixar os cargos. O vice, no entanto, por pouco tempo. Como assim? Estamos dizendo: guarde aquele nome!

Nas eleições suplementares de 1º de março de 2015, o incerto quadro da disputa foi marcado por fragmentação do alinhamento entre os partidos e o lançamento de quatro candidatos: novamente o Prof. Antonio (PMDB); o vereador, e então presidente da Câmara, que havia gostado de ficar à frente da prefeitura no período de vacância do cargo, Guto Biella (PV); um ex-prefeito anterior a Mazzinho, conhecido como Major Zitelli (PRB) e… e… Quem? Pois é: o vice cassado Zequinha Kawachi (PSDB). Nessa disputa fora de época, foi ele quem venceu com cerca de 38% dos votos válidos. Complexo? Não, destino das urnas. Os cidadãos – ainda bem – continuam soberanos. Todavia, ficam no ar duas reflexões. Faz sentido o cassado vice poder disputar o jogo?

E outra: se, ao invés de Mazzinho, o prefeito naquele momento fosse Bento Ary, ele teria sido cassado por pedir dois dólares ao povo com quem conversava? Ou na política já não existe mais espaço pra esse tipo de “romântico das anedotas”? A despeito da folclórica caixinha de outrora, atualmente o sucesso eleitoral tem sempre que passar por grandes escândalos? Num país em que Elba vira Ferrari, é provável que dois dólares sejam meros pixulecos na realidade política do país. Até quando? Até quando o cassado for eleito. Detalhe: por vontade popular!

 

Obs. essencial: a história não acaba por aqui. Enquanto produzíamos esse texto o prefeito Zequinha Kawachi e o seu vice tiveram suas candidaturas cassadas pelo TRE. Assume temporariamente a atual presidente da Câmara, Edmércia Micheletti. Nesse ritmo, até o final desta leitura pode ser que outro político assuma a cidade. Agoniza Democracia!

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