Protestantismo legislativo

Eder Brito

07 de maio de 2015 | 09h04

Faz alguns anos que me mudei de Diadema para São Paulo, mas ainda passo por lá aos finais de semana, para visitar a família. Nos 650 metros que separam a casa da minha mãe e a casa da minha avó (percurso que eu faço algumas vezes quando estou por lá) existiam três botecos. Eram bares cuja localização e características foram fotograficamente gravados em minha memória por serem parte da minha rotina na infância e na adolescência, pontos que ficavam no meu caminho entre a escola e nossa casa. Hoje estes estabelecimentos são três ex-botecos, agora ocupados por igrejas cristãs protestantes. Não estou dizendo que essa mudança foi boa ou ruim. Estou apenas dizendo que a mudança ocorreu. Três lugares onde as pessoas se reuniam para jogar sinuca, tomar “umazinha” e jogar fliperama nos anos 90 agora são templos de oração. Sinto que é um fenômeno que não deve ter ocorrido apenas no Jardim Paineiras, em Diadema. Mas só sinto, não pesquisei. Fica a dica para os amigos sociólogos.

Em Sorocaba, bem longe de Diadema, em 2012, um vereador do PMN, evangélico, de olho no aumento no número de templos, talvez preocupado com a “concorrência”, propôs um projeto de lei proibindo bares, lanchonetes e “casas de show” a uma distância mínima de 300 metros de qualquer igreja do município. Na justificativa, explicou que “os fiéis precisam de paz para orar”. O bar que insistisse em “existir” ao redor das igrejas seria multado e, posteriormente, fechado. O vereador certamente não conhece o Jardim Paineiras em Diadema, caso contrário teria apresentado outro tipo de sugestão no texto do projeto. É provável que o vereador também nunca tenha adentrado um culto com um decibelímetro em mãos, para medir o nível de paz e silêncio durante algumas orações.

Na semana passada, também com inspirações cristãs, um vereador do PSD em Santa Bárbara D’Oeste (SP), preocupado com o iminente fim do mundo, decidiu criar uma lei proibindo a instalação de chips nos munícipes. Com base em um texto bíblico, temendo o fim do mundo, o vereador fez um texto de justificativa para o projeto. O trecho a seguir dispensa análises mais profundas. “Tendo em conta que o fim dos tempos se aproxima, é preciso que as leis se antecipem aos futuros acontecimentos. Sendo assim, urge que se proíba a implantação em seres humanos de chips ou quaisquer outros dispositivos móveis que permitam o rastreamento dos cidadãos”. Isto porque os chips seriam instrumentos demoníacos que garantiriam a danação eterna para os munícipes de Santa Bárbara D’Oeste.

Reclamar dessa confusão entre religião e política é chutar cachorro morto. Só fico desesperado pensando no número de horas e recursos públicos gastos com as duas leis descritas acima e outras genialidades legislativas. Por isso, concluo defendendo o projeto de lei do vereador Edivaldo Soares, do PSB, em Limeira-SP. O projeto, apresentando em março de 2015, dá ao Prefeito da cidade o poder de revogar todas as leis municipais sem sentido e inservíveis. Utilidade pública inquestionável.

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