Prefeitos “legislativos”

Eder Brito

18 de março de 2015 | 20h17

O deputado federal Eduardo Cunha, atual presidente da Câmara dos Deputados quase sempre gera mais notícias com assuntos polêmicos. Pode ser culpa da imprensa, que prefere priorizar esse tipo de informação ou pode ser uma questão de estilo. Fato é que normalmente ele incita reflexões provocativas de cunho (sem trocadilhos) negativo. Mas em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura na última segunda-feira, devo confessar que ele me fez pensar sobre algo sério e, aparentemente, positivo. Em resposta a um dos jornalistas convidados, sutilmente, ele questionou a falta de experiência da Presidente Dilma Roussef quando o assunto é o legislativo. Apontou que, ao contrário de todos os ex-presidentes que o Brasil teve na era pós-88, apenas ela assumiu a cadeira principal do Executivo sem ter passado por qualquer tipo de experiência no legislativo. Vereadora, deputada, senadora… nada. Fiquei a pensar…

Imediatamente, olhei para a lista de prefeitos brasileiros. Como é difícil avaliar os 5570 municípios do país de forma rápida, bati o olho nas 26 capitais (excluí o Distrito Federal por conta das “peculiaridades” do território). Nas principais cidades brasileiras, capitais dos estados da federação, 18 prefeitos passaram por experiência no legislativo antes de assumirem a gestão de suas respectivas cidades. Temos 8 prefeitos que entraram direto no cargo mais alto da gestão municipal sem experiências prévias em Câmaras ou Assembleias.

Fernando Haddad talvez seja um dos casos mais citados, ao menos no estado de São Paulo. Foi ministro, mas nunca foi vereador, nem deputado, nem senador. No sudeste, a história dele se parece com a de Márcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte que também já foi ministro, mas nunca esteve no legislativo. “Ministro precisa lidar muito com tarefas de cunho legislativo e interagir muito com deputados e senadores”, alguém dirá. Sim, mas a metodologia aqui não é essa. Aqui o questionamento é: “Quão importante a experiência de debate, fiscalização e aprendizado no chão-de-fábrica do legislativo transforma prefeitos em agentes mais realistas e sagazes?”.

 

Ainda no sudeste, Eduardo Paes, prefeito do Rio e Luciano Rezende, prefeito de Vitória já foram deputados federais. Na região Sul, todos os três prefeitos de capitais já tiveram mandatos de deputado, estadual ou federal. Gustavo Fruet, de Curitiba, teve três mandatos em Brasília e Fortunati, em Porto Alegre, além de federal, já foi vereador, estadual e até vice-prefeito. César Souza Junior, prefeito de Floripa já teve seu tempo de Assembleia Legislativa.

No Centro-oeste, apenas Mauro Mendes, prefeito de Cuiabá nunca teve um mandato no “segundo poder”. Na região Norte, o colombiano Carlos Amasha (único “estrangeiro” da lista), prefeito de Palmas e Marcus Alexandre, de Rio Branco nunca estiveram em cargos legislativos. Todas as outras cinco capitais são comandadas por ex-deputados e vereadores, incluindo Manaus que tem o ex-Senador Arthur Virgílio Neto como prefeito.

No nordeste, o desenho é parecido, mas com ressalvas importantes. Geraldo Júlio, prefeito de Recife, nunca esteve legislando, mas tem uma trajetória ligada a Miguel Arraes e Eduardo Campos, o que quase o “transforma” em um especialista da área. Carlos Eduardo Alves, prefeito de Natal também nunca esteve lá, mas já foi vice-prefeito. E há casos como João Alves Filho, prefeito de Aracaju, que já foi Prefeito e Governador por tantos mandatos que quase prescinde da experiência legislativa como medida comparativa. Todas as outras seis belas capitais nordestinas são geridas por ex-deputados.

No momento em que o país vai às ruas para questionar a qualidade da gestão, da governabilidade e da habilidade política de Dilma Roussef, poucos se perguntam se esta experiência é importante e o quanto ela define o perfil da Presidente. E pouco paramos para analisar nossas prefeituras e câmaras municipais, muito mais próximas e passíveis de transformação e participação. Em quatro anos, quanto tempo leva para que um prefeito “inexperiente” entenda o ritmo de interação com o legislativo? Qual é a possibilidade de que ele tenha seus planos engolidos por um legislativo cheio de dinossauros da política “tradicional”? Provoco ainda mais: os 8 que nunca “estiveram lá” chegam com menos vícios e mais preparados para inovar? Estão sendo melhores prefeitos que os outros 18 já calejados da lida legislativa? A conferir, inevitavelmente também mantendo o olho no nível federal da coisa toda.

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