PPP – Política Pública Pikachu

Eder Brito

20 de julho de 2016 | 22h16

Pessoas adultas correndo atrás de personagens virtuais no mundo real. Realidade aumentada. O jogo já teve mais downloads que o Tinder. O termo já é mais buscado na web do que conteúdo pornográfico (!!!). Você olha o celular e vê o “mundo real”, mas o enxerga habitado pelos monstrinhos. Nunca vi o jogo. Só conheço alguns dos personagens porque durante a infância, minha irmã mais nova era muito viciada no desenho animado. Lembro-me do Pikachu e de uma outra tartaruga estranha. Mas agora Pokémon Go está causando um frisson que nenhum outro video game conseguiu causar antes. Não me lembro de outro fenômeno parecido.

O jogo se utiliza da geolocalização do celular e isso faz com que as pessoas efetivamente tenham de se mover em busca dos locais indicados como pontos em que é possível capturar os bichos. Nos EUA, mais de um acidente automobilístico já foi atribuído às caças. Pessoas se perderam em cavernas. Tornozelos se quebraram em buracos não vistos. Há uma série de coisas malucas ocorrendo por aí. Assaltantes utilizaram-se de informações de localização do jogo para atrair pessoas que posteriormente foram roubadas. Na Bósnia, país que ainda tem muitos campos minados, ONGs já iniciaram campanhas para alertar caçadores de Pokémon a fim de que eles evitem certos territórios. Também há coisas boas ocorrendo. Um abrigo de animais em Indiana, nos EUA fez uma campanha inovadora. Eles convidam os jogadores a passearem com cachorros reais enquanto caçam seus bichinhos virtuais. De repente rola um clima, nasce um vínculo e o bichinho sai de lá adotado.

É muito difícil escrever sobre algo que ainda está acontecendo, ainda evoluindo. Não faz nem um mês que o jogo foi lançado, mas o número de usuários cresce exponencialmente. E Pokémon Go já começa a adentrar até o campo da política, é claro. No Rio de Janeiro, o Prefeito Eduardo Paes mandou recado para Nintendo, utilizando sua conta no Twitter. Disse que a empresa tem que viabilizar Pokémons na cidade durante os Jogos Olímpicos, pois “o mundo inteiro estará lá”. Usou até imagens de Pokémons em pontos conhecidos do Rio. No Rio Grande do Sul, a Prefeitura de Esteio lançou o aplicativo “Catioro GO!” para promover a adoção de animais. “Temos muitos bichinhos em nosso canil municipal, com diferentes habilidades, aguardando por um treinador que possa lhes dar muito carinho e ajudá-los a evoluir. Para capturar o seu, é só aparecer no canil!”. Original, no mínimo. Nos EUA, o game também já é tema na disputa Donald Trump x Hillary Clinton. A democrata fez uma piada sobre pokémons indo às urnas. Em resposta, também de humor questionável, a equipe de Donald Trump criou Crooked Hillary, um Pokémon “que mente para eleitores e burla o sistema”.

No último sábado, reunido num curso com um grupo de jovens lideranças políticas, o assunto Pokémon Go surgiu. Discutia-se participação popular na gestão pública e os potenciais usos da tecnologia para potencializar o encontro do governo com os cidadãos. Alguém lembrou que a geolocalização de Pokémon Go pode ajudar em muita coisa. Interagir com as pessoas em tempo real é possível. Saber onde elas estão, o que elas acham e o que elas querem é uma realidade. Como integrar processos da política a algo que as pessoas já fazem e já consideram divertido? Como se aproveitar desses fenômenos para fazer com que as pessoas os utilizem para viver melhor no mundo real e não se isolarem mais ainda no mundo virtual? Georreferenciamento já é uma realidade essencial para o planejamento de políticas públicas. Já existe muita coisa boa acontecendo nesse sentido, mas tudo é visto como algo “técnico”, chato, distante das pessoas. Como trazê-las para perto? É possível? Estamos falando besteira? Estamos viajando na maionese? É muito difícil entender as coisas enquanto elas ainda estão acontecendo. É mais difícil ainda entender o que as pessoas querem e como elas estão se relacionando, principalmente quando se é governo e é obrigação entender todo mundo ao mesmo tempo. Quem tiver paciência e nenhum preconceito vai inovar. Alguém vai rir disso. Eu prefiro esperar para ver onde estamos indo. Depois eu dou risada.

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