Por uma nova política

Humberto Dantas

08 de setembro de 2014 | 08h15

Se o resultado das eleições desse ano passam pela compreensão do que representa “fazer uma nova política” posso garantir que deveríamos incluir nas reflexões o sentido de pensarmos em novos eleitores/cidadãos. Isso não representa dizer que vamos mandar gente embora do processo, mas certamente os brasileiros também precisam mudar de postura diante da política. Digo em palestras que o Congresso Nacional, por exemplo, é um espelho bastante fiel daquilo que graça em termos de valores na nossa sociedade. Por vezes sou criticado por isso, mas negativa e positivamente não consigo ver nada muito diferente.

 

Assim, nova política depende de nova postura cidadã. Foi isso que sonhávamos quando lançamos, no ano passado, o livro “De olho no Legislativo” (digital e gratuito), que consiste num manual de acompanhamento dos parlamentos por parte de grupos de cidadãos comuns. Unidos, engajados e capazes de ler com atenção o material seria possível sonhar que acompanhassem parlamentos em todo o Brasil. A ideia foi bem recebida pela imprensa. Saiu matéria no Estadão, na Exame, na Rádio Estadão e em tantos outros lugares. Mas efetivamente, alguém botou a mão na massa e foi olhar o parlamento? Conheço algumas tentativas históricas que vão além desse estímulo técnico.

 

O Movimento Voto Consciente, organização mãe do livro, faz isso desde a década de 80 em São Paulo-SP e em tantas outras cidades e estados. A novidade, no entanto, foi o trabalho realizado no Guarujá. Por lá, o Instituto Brasil Verdade (e vale conferir o site) juntou um pessoal e descobriu que era possível fazer a pesquisa apenas com as informações que a Câmara Municipal disponibilizava no seu portal. Tá aí a primeira raridade: poucos são os parlamentos municipais que ofertam informações organizadas e até certo ponto profundas sobre suas atividades legislativas. Uma pena. Digo isso porque na UFABC participei de um projeto de pesquisa onde um aluno, orientado pelo professor Vitor Marchetti, tinha como objetivo realizar ação semelhante nas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá. O resultado foi trágico. Nada de dados e as informações pedidas com base na Lei de Acesso à Informação foram praticamente ignoradas. Pobres parlamentos. Pobres cidadãos. Pobres municípios. E tem quem sonhe com autonomia municipal. Sem transparência? Impossível.

 

Mas no Guarujá o trabalho foi realizado e divulgado pelo Instituto Brasil Verdade. As notas dos vereadores diziam respeito ao primeiro ano de mandato (começo de 2013 a começo de 2014). Teve gente que ficou mal na foto. A maioria dos vereadores tiraram notas abaixo de cinco. Mas dois superaram sete. O resultado pode melhorar, sobretudo porque o Instituto está disposto a orientar para o que o manual do Voto Consciente entende por um mandato minimamente razoável – além disso o intuito é repetir anualmente o trabalho. A nova política passa, assim, por reflexões conjuntas. O problema é que muito vereador ficou revoltado, desafiando a “nova política”. O lançamento dos resultados, marcado para evento na Câmara foi suspenso no dia. Os parlamentares preferiram fiscalizar. Fiscalizar? O que? O executivo? Não. Isso seria ótimo. Mas foram mesmo “fiscalizar” o treino da seleção da Bósnia, que acabara de chegar à cidade para a Copa do Mundo. E tem gente sonhando com uma nova política…

 

 

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