Por que não protestamos em Bom Jesus e Barra Mansa?

Eder Brito

15 Abril 2015 | 23h56

As manifestações de junho de 2013, março e abril de 2015 e todas as outras que ainda acontecerão geram muitas dúvidas quanto ao seu objetivo maior, mas têm um ponto claro em comum: demonstram algum tipo de insatisfação. Quando fui às ruas em 2013, vi até gente se aproveitando de manifestação política para reclamar do padrão da tomada brasileira. Tem louco e democracia para tudo. Mas é correto ter esperança e interpretar que tudo isso representa a descoberta de uma nova vocação cívica de participação, “no grito”, meio desorientada, mas com vontade legítima? Vamos gerar eleitores mais conscientes e cidadãos que participam mais de outros processos públicos além das eleições? No fundo, no fundo…. sei lá! Quem disser que sabe, corre o risco de estar sendo presunçoso. Estamos no meio do processo e disso eu tenho certeza.

Mas devo confessar que me incomoda o fato de que “temos” ido às ruas para protestar, eminentemente, contra o governo federal. É verdade que as manifestações de 2013 focavam o transporte público municipal, mas era uma agenda nacional comum, que culminou em outros temas de interesse do país, como a PEC 37. Agora, em 2015, há uma sensação da possibilidade de mobilização e acenos da busca pela conscientização em relação à temas e à agenda da política nacional, mas ainda não olhamos para os assuntos que estão mais próximos de nós, nas Prefeituras e nas Câmaras Municipais.

É a conclusão que me surge quando vejo que ninguém faz passeata em Bom Jesus, no Rio Grande do Sul contra o Prefeito Frederico Arcari Becker, que emprega mãe, irmão e esposa como secretários municipais e ainda diz em entrevista à imprensa que “não pretende alterar o quadro de secretários, e sim a mentalidade das pessoas que polemizam problemas que não existem”. Também não entendo porque em Barra Mansa, cidade do Rio de Janeiro, não há paralisações contra o Prefeito Jonas Marins de Aguiar que emprega mãe, irmão e cunhada como secretários e na presidência da comissão de licitações. Por que estes problemas locais chamam menos atenção, mobilizam menos gente e geram menos ódio? Por que a política local e a política nacional produzem efeitos psíquicos e emocionais tão distintos nas pessoas?

Temos nos esforçado para entender a política nacional, o papel da Câmara dos Deputados, suas comissões, o Senado, a Petrobrás, o BNDES, os Ministérios e contamos com a ajuda da imprensa para não tirar isso da pauta diária. Mas ainda não participamos dos conselhos municipais, não entendemos o papel do vereador, não sabemos quais são as reais atribuições da Prefeitura (e o que não é), não temos ideia de quanto dinheiro nossa cidade tem, nem como usa e odiamos todo e qualquer partido político, como se fosse possível viabilizar governos e democracia sem eles.

Santo de casa não faz milagre? Ou tem um monte de casa amaldiçoada, desprovida de santo, onde todo mundo acha que a solução sempre vai ser falar direto com Deus, ignorando os interlocutores sagrados? Não deixemos de olhar para onde já estamos olhando. Mas prestemos atenção em todas as direções. E oremos.