Políticaney

Eder Brito

07 de março de 2014 | 14h41

Por Eder Brito

São horas e horas de dedicação dos fãs ao ídolo na internet, milhões de seguidores no Twitter, outras milhares de curtidas no Facebook e deliberações homéricas em relação a qualquer coisa que envolva um aspecto mínimo da vida da artista adorada. As “divas do pop” e outros artistas cercam-se de um aparato de divulgação, adoração e popularidade que certamente deve causar inveja em muito político graúdo. Não é novidade que os partidos políticos ficam de olho nestas figuras, em busca da transferência desta popularidade para a contabilização de votos a cada dois anos, quando se aproxima o processo eleitoral. Mas isto atinge a política brasileira em nível local, de alguma maneira?

A resposta é sim. Lady Gaga, por exemplo, tentou ser vereadora. Não conseguiu. O pseudônimo adotado pela agricultora Maria Roseane Ferreira em 2012 e os votos dos “little monsters” de Bom Conselho, Pernambuco não foram suficientes para viabilizar uma vaga na Câmara Municipal da cidade. No sul, quem tentou foi Adriana Aguilera, pelo PHS. Também não conseguiu e ficou como suplente na Câmara Municipal de Londrina, no Paraná, mesmo destino da Lady Gaga pernambucana. Irônico é que um homem que carrega a mesma homenagem indireta à diva conseguiu a vitória e agora é vereador na Câmara Municipal de Dourados, Mato Grosso do Sul. Trata-se de Aguilera de Souza, que além da vaga no legislativo douradense, também é presidente da Associação dos Vereadores Indígenas de Mato Grosso do Sul. Desconfiamos que este último não usou músicas de Christina durante a campanha, tampouco conhece a discografia da jurada do The Voice.

Teve também uma Celine que se filiou ao PSDB em 2012 e tentou vaga na Câmara Municipal de Jundiaí. Foram pífios 55 votos, ficando numericamente bem atrás das cifras milionárias referentes aos álbuns vendidos e dólares faturados pela xará canadense. E há quem não carregue o nome da diva para a urna, mas ainda se aproveita da ligação direta para tentar conseguir votos. Foi o caso de Júlio Salvo, rapaz que ficou conhecido por ganhar um beijo de Katy Perry durante a passagem da diva pela edição 2011 do Rock In Rio. Júlio tentou capitalizar a fama de ter sido beijado ao vivo, em rede nacional e buscou vaga como vereador em Sorocaba. Filiou-se ao PSC, mesma legenda do polêmico Deputado Federal Marco Feliciano, companheiro que certamente não gostaria de saber que Júlio é fã da cantora que “beijou uma garota e gostou”. Não foi eleito.

O fato é que estas associações da política com a cultura pop podem se tornar divertidas, mas sempre parecem ficar no campo da superficialidade e do oportunismo. No ano passado, em meio às manifestações de junho, Marilena Chauí falou da teoria do “inferno urbano”, em que a mídia, artistas e outras figuras tentar tomar (ou tomam) o lugar das instituições sérias que deveriam preencher locais estratégicos na vida dos jovens, como os partidos políticos, por exemplo.

Enquanto isso, as divas, bandas e outros artistas claramente estão lá, no dia dos jovens, muito mais do que qualquer outra figura política. E as piadas ruins brotam diariamente. O município de Braganey, no Paraná, por exemplo, nem sabe de sua ligação direta com Britney Spears. E esta última piada, infelizmente, é só para fãs da Neide. O nome do prefeito da cidade eleito em 2012 também homenageia a diva: Joseney.