O PMN e mais um capítulo da incoerência partidária com base nas imbecilidades possíveis em tempos atuais

Humberto Dantas

05 de setembro de 2016 | 07h14

Todos sabem que esse blog se pega em “questões mínimas” para que possamos, a partir das cidades, mudarmos nossa política nacional. Prestemos atenção a esses pontos. Esse texto faz questão de ser BEM agressivo, fugindo um pouco do ritmo habitual de nossas publicações:

1 – Não é incomum dar aula sobre Democracia para jovens e colher que LIBERDADE é a palavra que mais se aproxima do conceito. Assim, a partir de uma visão limitada do próprio termo ‘Liberdade’, que com o devido cuidado pode até nos levar ao conceito de democracia, entendem que supostamente poderiam fazer, individualmente, e a partir de seus julgamentos, o que querem no mundo em que vivem(os). Definitivamente isso combina pouco com democracia.

2 – Não é incomum que os jovens apenas reproduzam o que os mais velhos pensam sobre política, democracia e liberdade. Assim, quando a formação política se destina a adultos, não é incomum colhermos as mesmas críticas e observações que deixam escapar ao conceito de Democracia o fato de que ele combina MUITO mais com REGRAS construídas conjuntamente e que podem nos ofertar liberdades, mas que limitam nossas ações, do que com liberdades incondicionais associadas aos desejos singulares dos sujeitos.

3 – Instiga os jovens com os quais tenho conversado a seguinte provocação simples: “nosso mundo é individualista e rápido. A democracia é lenta e plural”. Como saímos disso? Como fazemos para entender que num gesto de construção e vida em conjunto devemos olhar os demais? Onde fica a tolerância diante de minha pressa e de minhas certezas absolutas?

4 – Diante desse desejo individual crescente e desse ímpeto de construção de protagonismos singulares chegamos à era das redes sociais e da capacidade de cada um ser dono de sua própria pauta e de seu próprio roteiro de notícias. Criamos um mundo customizado a partir de cálculos pautados em nossos cliques, curtidas, posts e compartilhamentos. Somos senhores de nós mesmos, e até o jornalismo se rendeu a isso. Fim dos debates plurais, das partes DIFERENTES dialogando, e início do mundo dos comentaristas radicais que “acalentam a alma” de seus seguidores incondicionais. Dá pena de ver como, nesse caso, a ciência corre para um lado e a política para outro. E a política vira a arena da idiotice, até mesmo a partir daqueles que deveriam zelar minimamente pelas reflexões que precisamos fazer a partir dela e para ela.

 

Juntemos o individualismo, a intolerância, a dificuldade para vivermos juntos, o jornalismo de conforto, o fim do debate e a sensação de que sou livre para fazer e pensar o que bem quiser, sobretudo a partir de MINHA conta nas redes sociais. Pronto! Agora olhe para as eleições e procure ver o que dizem alguns candidatos. Encontrei essa semana que passou o símbolo maior de tudo isso vindo de Natal, Rio Grande do Norte. Um candidato a vereador chamado Jaufran Siqueira sugere queimar a casa de feministas, para mostrar que não curte tanto assim a causa do movimento histórico. Na foto, um meme bizarro, a imagem de uma criança e uma casa em chamas – confira aqui. A foto correu o Brasil e milhares de manifestações contrárias surgiram. Como resposta, apelando para sua “liberdade” e buscando culpar a ignorância alheia pela crítica à sua completa insanidade, o sujeito disse que Natal é uma cidade onde as piadas precisam ser explicadas. Outros tantos posts semelhantes em sua página apelam para o sacrífico e a violência contra o que ele não gosta. A explicação do ignóbil é longa, e apela para livros que o sujeito leu (do seu jeito) e imagina que TODOS tenham lido. Pois é: nesse mundo das liberdades não conseguimos imaginar que nem todos escolheram as mesmas fontes que nós, ou as leem da mesma maneira. E piada, quando precisa ser explicada, costuma causar desconforto. Piada? Passou longe de ser brincadeira o gesto criminoso do aprendiz de político.

Mas é óbvio que não vou propor aqui que crucifiquemos, estupremos, queimemos, eletrocutemos esse tipo de cidadão. Ofertar a quem se acha livre para “pensar” o mesmo veneno que imagina usar para “edificar” é voltar ao ponto de partida medieval. Jaufran precisa apenas de três elementos básicos: lei, paciência e capacidade de observar onde está na história. Falta ao rapaz o que na década de 50 a sociologia chamou de Imaginação Sociológica.

Assim, proponho apenas que voltemos aos quatro pontos iniciais desse texto para tentarmos compreender onde desejamos chegar enquanto sociedade. Se achar que é isso mesmo, que devemos ir em frente, que Jaufran tem razão, simples: aos natalenses votem 33.123 para vereador – ele não terá competência para fazer o que propõe, mas ao menos continuará bafejando esse tipo de tolice na orelha de seus seguidores. Meu sogro, natural de Natal-RN, diria que o rapazinho continuará a “bostejar” suas ideias. Resumindo: eleja esse tipo de gente se concorda com eles. Aos demais brasileiros, um pouco de esforço e certamente encontrarão asneiras dessa natureza na imensa maioria das nossas cidades. E será possível votar na intolerância confortante.

Por fim, uma mensagem ao PMN – Partido da Mobilização Nacional. Meus mais sinceros agradecimentos por escrever mais um capítulo da infinita série “incoerências partidárias” na história do país. Não foi difícil encontrar, e basta que as pessoas comparem o que diz o “comediante do ano”, o “piadista eleitoral”, o “bem humorado Jaufran”, e o documento da década de 90, postado no portal nacional da legenda e intitulado: “

Documento

”.

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