Pink Floyd, cachorros e política municipal

Eder Brito

04 de março de 2015 | 15h03

Minha tia teve um gato chamado Pink Floyd. Muita coisa divertida aconteceu no ano de 1996, mas uma das mais inusitadas e marcantes foi a primeira festa de aniversário do Pink Floyd. Teve bolo, refrigerante, bexiga, ração e tudo o que uma festa felina deve ter. Falar disso hoje não soa como novidade. Segundo a Associação Brasileira da Indústria PET (Abinpet), hoje o Brasil é o 4º país do mundo em número de animais de estimação e cresceu mais de 7,3% de 2013 para 2014. Festas e outras regalias para os bichinhos não são mais coisa estranha, mas presenciando o “Parabéns pra Você” naquele salão há 20 anos, gosto de pensar que minha tia foi pioneira.

Com todo o crescimento e as consequentes cifras atraentes, é natural que o país comece a olhar para a indústria de animais de estimação de uma maneira mais “carinhosa”. O governo também faz isso. Prefeitos, secretários municipais e vereadores também fazem isso. Já foi o tempo em que a única coisa que se fazia eram as campanhas de vacinação contra raiva ou o envio de vira-latas para os centros de controle de zoonoses. Hoje já se faz política pública para cachorro. E para gatos também.

Foi o que fez a Câmara Municipal de São Paulo há menos de um mês. Os vereadores aprovaram uma lei que permite cães e gatos no sistema público de transporte. Claro que eles precisam estar bem acomodados em suas respectivas bolsas e sacolinhas de transporte. Óbvio que são permitidos apenas as espécies de pequeno e médio porte, com um peso máximo de dez quilos. Mas já é uma evolução que vai permitir aos paulistanos um tipo de passeio diferente com seus bichinhos. A lei aguarda sanção do Prefeito.

Não é à toa que o sistema surgiu na mesma cidade que elegeu como vereador mais votado em 2012 o político que utilizou (quase que exclusivamente) imagens de cachorrinhos fofos em seu material de campanha. Não é à toa que em 2014, o mesmo indivíduo foi eleito deputado estadual, com a mesma estratégia e quase o dobro dos votos. Também não é por acaso que estamos falando da mesma capital em que foi fundado o primeiro hospital veterinário público municipal do país. Teve tanta demanda que a Prefeitura já inaugurou um segundo.

Recife, Porto Alegre e o Distrito Federal já estão seguindo ou tentam seguir o mesmo caminho. Serra Talhada, município de 80 mil habitantes no sertão pernambucano também inaugurou há menos de dois meses o primeiro hospital público veterinário municipal. Além dos hospitais, alguns municípios também já têm frentes interessantes visando a proteção e o bem-estar de sua população animal. Em Guanambi, no centro-sul baiano, já vigora uma lei que determina a castração gratuita de cães e gatos em situação de rua, com o procedimento pago pela prefeitura. Em Duas Barras, município fluminense de 11 mil habitantes, existe um instrumento parecido e o texto da lei ainda manda priorizar os cães e gatos que vivem próximos ou em “comunidades de baixa renda”. Uma política pública sócio-econômica-canina-felina-de-saúde. Incrível e inteligente também a iniciativa da Prefeitura de Araquari, município de Santa Catarina onde os moradores que decidem adotar um cachorro ou gato de rua ganham descontos de até 50% no IPTU. 

Este texto não consegue apresentar todas as iniciativas e tentativas de políticas públicas voltadas aos animais em nosso país. Confirmam, no entanto, que há um novo “ator social” na hora de formular a agenda das prefeituras. O governo municipal agora também precisa ouvir Pink Floyd. E todos os outros seres que atendem por nomes divertidos como esse e têm feito parte da família e do cotidiano dos munícipes, ajudando a deixar um pouquinho mais leve e harmoniosa a vida em alguns de nossos complicados centros urbanos.

Com colaboração de Celina Dinitzen

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