A violência na arquitetura de Salvador

Humberto Dantas

23 de abril de 2017 | 19h38

Salvador era sinônimo de Carnaval em minha vida. Não foram muitos, na verdade apenas um. Mas inesquecível para quem teve uma juventude intensa em matéria de festas e diversão. A segunda visita veio sob a forma de um convite para falar num evento cultural da Vivo. Passagem curta e concentrada em conversas mais sérias.

A soma das duas viagens não me permite dizer que conheço Salvador. Mas dessa vez foi diferente. Um feriado inteiro com duas incursões fortes sobre a realidade local. A primeira com moradores queridos, por mais de 10 horas entre diversos pontos da cidade baixa e Itapuã. A segunda bem turística, com um ótimo guia pelo Pelourinho. Gostei de ambas e alguns pontos chamam a atenção na cena local.

Impossível não entrar num debate que busque compreender os limites do Turismo e da desigualdade. Até que ponto a cultura local e as mazelas sociais podem ser subvertidas ou ignoradas pelo desejo de ajeitar lugares em nome da preservação da história? Quem tiver respostas fáceis para esse debate flertará intensamente com o ácido juízo de valor de nossos tempos. A resposta não existe!

Outro ponto está associado ao caráter mais sociológico, ao encontro de etnias e crenças. Salvador respira essa magia e certamente é a grande cidade onde a África conta de forma mais clara sua história no Brasil. Tudo remete aos povos trazidos e mantidos de forma desumana para o país nos tempos coloniais. Tal história está bastante viva, e contada de diversas formas. Seja pela presença do povo nas ruas, seja por museus, pela arte, pelo debate político, pelo mágico sincretismo religioso. Impressiona, no entanto, que a cena política baiana, sobretudo na capital, seja tão branca.

Merece atenção ainda o quanto a história do Brasil, sobretudo dos séculos XVI a XVIII, mas com passagens importantes que vão até o início do XIX estão presentes em prédios e narrativas. Para quem gosta de estudar o país Salvador é parada obrigatória, a despeito da violência e da desigualdade que saltam facilmente aos olhos em alguns pontos da cidade. É aqui que a arquitetura portuguesa, o desenho lusitano e a adptação de um espaço geológico desafiador se encontram com os povos que fizeram o Brasil pela exploração do trabalho escravo. Salvador é uma aula de sociologia e história a céu aberto.

Por fim, uma discussão que ultrapassa as fronteiras brasileiras e nos leva a diversos exemplos pelo mundo. Em Paris, a pirâmide de vidro instalada no Louvre. Em Sevilha, o Metropol Parasol em plena cidade antiga. Em São Paulo aquela onda na Praça do Patriarca. E em Salvador, diretamente da década de 80 e suas controvérsias estéticas, o Palácio Tomé de Souza. Um monstrengo instalado em plena praça histórica onde está a secular Câmara Municipal, a entrada do elevador Lacerda e o primeiro prédio – reformulado – a abrigar o governo colonial. Uma tranqueira pseudo-moderna e destoante na entrada do Pelourinho. Os adjetivos utilizados nesse parágrafo podem ser, obviamente, contestáveis. Mas definitivamente a história não merece tais intervenções sem consultas mais adensadas. Por sinal, o atual prefeito, elogiado por muitos e contestados por outros, nitidamente um forte interventor na cena da cidade com muitas obras, poderia dar de presente aos baianos a demolição de tal edifício. Na cena soteropolitana eu inscreveria tal aberração arquitetônica, facilmente, na lista de violências da cidade.

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