Penduricalhos

Eder Brito

31 de agosto de 2016 | 15h06

Murilo morreu. Quis me reaproximar dele ao longo da vida, mas não consegui e agora ele se foi. Nosso relacionamento durou pouco tempo e não deu certo. Eu estava muito fora do armário e ele tinha medo demais de sair. Afastamo-nos por muito tempo e agora para sempre. Pergunto-me, inevitavelmente, como teria sido e que caminhos teria seguido se tivesse ouvido meu convite para tentar vencer o próprio medo e conseguido ignorar o preconceito daqueles que tanto sofrimento causaram ao rapaz. Talvez não tivesse feito a viagem que acabou sendo o motivo de sua doença.

Só soube da morte de Murilo pelo Facebook, sem querer. Descobrir a morte de alguém dessa maneira é horrível. Por conta do preconceito, a família dele nunca soube quem sou eu e nunca saberá. Eu não existo. Minhas lágrimas de tristeza não existem no mundo deles. Quando chorei, o corpo de Murilo já estava cremado.  A tristeza que senti me lembrou também do meu primo e do seu ex-namorado. Os dois estavam juntos há pouco mais de três meses, tudo escondido, por medo do preconceito arraigado nas duas famílias. Ninguém podia saber que eles eram gays.

O rapaz foi assassinado, covardemente. Certo dia, ao entrar em sua garagem, dois homens abordaram o moço, tentando roubar o veículo que ele dirigia. Reagiu e tomou o tiro que ceifou sua vida. Meu primo só soube do velório, do crime e do enterro depois que tudo havia passado, graças à solidariedade de uma amiga do falecido. Ninguém na família do namorado sabia da existência dele. Passou dias chorando e sofrendo em silêncio, sem a menor chance de dizer adeus a quem amou. Não compartilhou com os outros, a quem também amava, pelo terror de ser rejeitado e incompreendido. Quem já sentiu, sabe.

A homofobia não se manifesta apenas com agressões e ameaças à integridade física. É um conjunto nefasto de valores atrasados que tomam conta das pessoas e das comunidades, às vezes até de forma subliminar. É um emaranhado de obstáculos psicológicos e sociais que se prostram de uma maneira quase irremovível na cabeça e no cotidiano. Às vezes invisível, surda, muda, mas sempre letal. Se não mata ou inspira o suicídio, faz sofrer, ao menos, garantidamente. Se não impede totalmente, atrapalha por muito tempo. Atinge as pessoas em pontos de sua dignidade que só são perceptíveis para quem sente.

Por isso as políticas públicas municipais de conscientização, respeito e promoção da diversidade, seja lá em qual município brasileiro forem, não podem ser tratadas como simples “penduricalhos”. O governo municipal está mais próximo das pessoas e é nessa esfera que o longo prazo pode ajudar a transformar as estruturas. Temos 5.570 municípios no Brasil, mas apenas 15 (Quinze!!!) cidades têm Conselhos Municipais voltados aos direitos LGBTT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Alagoinhas/BA, Itapipoca/CE, Cariacica/ES, São Luís/MA, São João Del Rey/MG, Belém do São Francisco/PE, Teresina/PI, Natal/RN, Bauru/SP, Ribeirão Preto/SP, São Carlos/SP, São Paulo/SP, Piracicaba/SP, Rondonópolis/MT e Pau D´Alho/PE. Os dados são do SIC (Serviço de Informação ao Cidadão) da Secretaria Nacional de Direitos Humanos do Governo Federal.

Não à toa, uma das propostas aprovadas pela última Conferência Nacional da Juventude foi incentivar a criação de mais Conselhos Municipais de defesa dos direitos LGBT. A existência desses órgãos garante ao menos uma voz (ainda que dissonante) lembrando a todo o Poder Executivo e Poder Legislativo em cada cidade dessa necessidade de criar municípios mais inclusivos. O fato de ter sido aprovado em uma Conferência da Juventude também diz muito sobre uma promissora geração futura, o que não significa que o futuro já tenha chegado às campanhas eleitorais de 2016. Procure e você não terá dificuldades de encontrar candidatos que querem ajudar a construir cidades menos humanas e um mundo cheio de estórias tristes, até que a morte nos separe.

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