Pedaladas em série…

Humberto Dantas

29 de junho de 2015 | 15h22

Em parceria com Luiz Vassallo

As pedaladas vivem o auge de sua carreira política no Brasil. Pense no paulistano: ele olha para os três níveis de governo e vê prefeito, governador e presidente pedalando, mesmo que em sentido figurado. Na capital paulista, as ciclovias representam uma das grandes polêmicas da gestão Haddad. A construção de 400 quilômetros de espaços especiais para as magrelas foi sua promessa de campanha, e o mais novo trecho inaugurado reuniu milhares de ciclistas na Avenida Paulista em obra estimada em cerca de R$ 11 milhões. Na capital federal as pedaladas ficam por conta de Dilma, em dois sentidos: ela faz exercícios em suas saídas do Planalto de capacete e tudo o mais, enquanto seu governo é acusado das tais “pedaladas fiscais” – termo associado ao atraso de repasses a obras e políticas sociais para simular um falso superávit trimestral. Nesse caso, a presidente tem até a metade de julho para responder questionamentos do Tribunal de Contas da União.

Mas e o governo estadual? Qual a relação do secretariado de Alckmin com as bicicletas? Pois bem. Lembra-se daquela ciclofaixa de domingo, que, basicamente, é realizada por meio do fechamento das laterais das avenidas com fileiras de cones? Os paulistanos as conhecem bem, projeto da prefeitura em parceria com um banco. Mas elas também estão no interior, e são feitas por meio de convênios firmados entre a Secretaria estadual de Esporte, Lazer e Juventude e a Federação Paulista de Ciclismo. Como a entidade esportiva é considerada sem fins lucrativos, os repasses são feitos sem licitação. Para comprar cones, veículos e tudo mais que for necessário, a Federação, administrando verbas públicas, também não precisa abrir concorrência. Bastam três orçamentos e pimba!

Diante dessa aparente facilidade uma reportagem da Rádio Estadão observou os gastos de nada mais, nada menos, que 600 mil reais com as ciclofaixas de domingo em Diadema e de 1,9 milhão para o mesmo projeto em Ribeirão Preto e Marília – e olha que os projetos não duraram sequer um ano! Logo no início da prestação de contas, consta a ata das últimas eleições da Federação Paulista de Ciclismo, documento que menciona todos os membros da atual gestão. Um deles, suplente no conselho da entidade, é Rogério Barrenha Benucci, que também era dono de uma das empresas contratadas para locação de veículos que serviriam às Ciclofaixas de Marília, Ribeirão Preto e Diadema. Isso mesmo! A Federação contratava, com dinheiro público, empresas dos próprios integrantes. Na tomada de preços, pasmem, duas transportadoras ligadas ao mesmo membro da entidade tinham orçamentos comparados. Uma delas, a Ágil Express, que representa a maior parte dos gastos, estava, à época do convênio, em nome de Rogério Barrenha Benucci e sua sócia, Luciana Benucci e Silva. A segunda empresa mais beneficiada, a Oliveira Transportes e Serviços, supostamente seria de Fernando Barrenha de Oliveira, segundo a Junta Comercial. Entretanto, a Ágil Express e a Oliveira Transportes têm os sites cadastrados em nome da mesma pessoa: Luciana B. S. e Santos. O número de contato da proprietária da página de ambas cai na Ágil. E lá a atendente confirmou: “moço, é que eu sou nova, mas a menina que trabalha aqui há mais tempo tá me falando que aqui é Ágil Express e Oliveira Transportes e Serviços”. Logo em seguida, confirmou que ambas eram de Luciana. As notas fiscais emitidas pela Oliveira Transportes e Serviços à Federação Paulista de Ciclismo foram todas assinadas por uma tal de Luciana Silva. Não é difícil concluir que, ao lado de Luciana Benucci e Silva e Fernando Barrenha de Oliveira, o integrante da Federação Paulista de Ciclismo Rogério Barrenha Benucci dá uma verdadeira pedalada em família com verbas do governo estadual. As bicicletas realmente estão na moda.

 

Errata: o valor da obra da Av. Paulista, na primeira versão do texto, estava equivocado.

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