Partido da Fiel. Fiel a quê?

Humberto Dantas

24 de agosto de 2015 | 07h27

Dia desses numa escola pública fui falar sobre Democracia com os alunos do terceiro ano do ensino médio. Eram 80 jovens numa sala, num ambiente descontraído, adjetivo que utilizo aqui também como sinônimo de uma deliciosa bagunça. A classe primava pela tradição: um pessoal desinteressado, uma galera bem atenta e um grupinho querendo causar. O segredo, nesses casos, é procurar se associar ao terceiro segmento. Se ganhar esses caras a aula deslancha. E consegui. Quando perguntei o que a palavra Democracia lhes trazia, um deles falou do Corinthians, ou da democracia corintiana da década de 80. Foi o gancho. Expliquei o movimento, lembrei alguns ídolos, e consegui falar do momento político pelo qual o país passava naquele começo dos anos 80. Dali pra frente foi fácil chegar aos pontos planejados.

 

Pontos planejados também parecem ser algo atingido pelo PNC, o Partido Nacional Corinthiano. A legenda faz parte de um grupo composto por mais de 100 ”bandos de loucos”, ou espertos, que pretendem ter um partido para chamar de seu no país. Assim: o que não falta é legenda tentando nascer. Mas o que está por trás do partido que pretende representar a dita “nação corintiana”? Lembremos que na história recente do país alguns atletas que desfilaram pelo Timão já apelaram para seu eleitorado. O ex-presidente e todo poderoso, André Sanchez, é deputado federal pelo PT. No final da década de 80, o volante Biro-Biro foi eleito vereador em São Paulo pelo PDS de Paulo Maluf. Nessa mesma onda nomes como Vampeta, Marcelinho Carioca, Dinei e Wladimir tentaram a sorte nas urnas. A sensação de que o time é capaz de eleger é tão grande que até capa de revista sugerindo comandar um batalhão de votos o ex-presidente Sanchez estampou. E o centro de treinamento do clube às margens da Rodovia Ayrton Senna é batizado de República Popular do Corinthians.

 

Tamanho devaneio político não poderia seguir sem um partido, ou ao menos inspirar alguém a defender a iniciativa. Já imaginou essa constelação toda sob uma mesma legenda? Olha a força: a capacidade de influência ou a paixão fez se rever duas vezes os planos para a Copa do Mundo em São Paulo. Descartou-se o Morumbi, descartou-se o estádio municipal em Pirituba e optou-se por presentear a Fiel com um estádio. Dinheiro público ou privado? Influência grande ou pequena das empreiteiras envolvidas em escândalos? Influência efetiva ou não de Lula? Crença ou não no poder de o Timão transferir votos? Não importa, o fato é que o partido está nascendo, mas o maior problema parece vir do autor da ideia. Primeiro porque entende que a paixão pelo futebol precisa se transferir para a política. Será? E vamos matar quem vota diferente de nós? Se a razão, o tempo dispensado e a compreensão teórica dispensados ao ludopédio fossem os argumentos utilizados até seria possível acreditar. Mas o que move uma legenda futebolística em termos de valores políticos? A proposta fala em resgate de valores da democracia corintiana dos anos 80 e de um movimento de cidadãos e “não de políticos profissionais ou homens de aparelho”. Os fatos, no entanto, desmentem as intenções. Juan Antonio Moreno Grangeiro, que encabeça a iniciativa e preside o PNC, se não é político profissional, ao menos presidiu o Partido Verde em sua cidade, e homem de aparelho público é. Se entendermos o termo a partir da composição de secretariados municipais, por exemplo, de acordo com sua carta de apresentação nas redes sociais Grangeiro foi secretário de Meio Ambiente de Ubatuba, trabalhou na Secretaria de Obras e foi secretário adjunto de assuntos jurídicos. Para além disso, em setembro de 2011, de acordo com o blog “Ubatuba Cobra”, foi condenado à prisão por questões associadas ao Código Penal, ameaçou o autor da postagem, que registrou boletim de ocorrência, e indicou que um funcionário de Grangeiro foi pego com drogas e arma de fogo do chefe. Por fim, na mensagem do “todo poderoso” torcedor no Facebook ele afirma estar cansado de “esperar por dias melhores, assistindo a escândalos, golpes, crimes, desvios, imoralidades e tantas formas de sujeiras que frustram a disposição de quem apenas assiste e espera”. Nós também presidente. Tenha certeza disso: nós também… E inclua oportunismo no rol de indisposições.

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