Os Mandioca e o Milho

Humberto Dantas

14 de setembro de 2015 | 07h09

Ainda causa mistério o sentido de “comungar a mandioca e o milho”. Para muitos a estranha fala da presidente Dilma nada mais foi do que um gesto estratégico para chamar a atenção do público para algo sem sentido. Mas se isso for verdade atingimos o limite da real idiotice. Paciência. Para outros ela estaria confusa, protagonizando mais um discurso desconectado. Por sinal: definitivamente a atual presidente não passará para a história do país por seu dom de se comunicar claramente com a sociedade. Habilidades as pessoas têm ou não para uma série de ações: Dilma não possui essa. E se voltarmos para a mandioca veremos que a presidente “saudou” o tubérculo como algo genial criado pelo brasileiro.

 

Se é efetivamente genial eu não sei, mas lembrei logo do Escândalo da Mandioca, uma das aberrações da década de 80 nesse país. Mais um capítulo de nosso passado corrupto. Em Floresta, Pernambuco, um programa do governo concedia crédito aos agricultores. Assim, muitos corriam ao banco em busca de dinheiro para a plantação de mandioca. A seca, no entanto, tendia a arruinar tudo, e novamente os agricultores corriam ao banco para buscarem o dinheiro do seguro. Até aí tudo aparentemente normal, até que um agricultor teve o crédito negado e botou a boca no mundo. Denunciou o esquema, mostrando que ninguém plantava coisa alguma. Pegavam o dinheiro, usavam para ostentar, e utilizavam a certeza da seca para pedirem ressarcimento sobre algo que sequer havia sido cultivado. Impunidade foi o resultado, ou seja, terminou tudo em pizza – e pizza de mandioca deve ser algo medonho, paciência!

 

Mas nem tudo é terrível em matéria de mandioca. A despeito do escândalo temos bons motivos para saudar o tubérculo. Em Trombudo Central, interior de Santa Catarina, por exemplo, existe até o Pavilhão da Mandioca, tamanha a importância da raiz na região. E no recinto, nos meses de setembro, ocorre a famosa Festa da Mandioca. Palestrei lá faz alguns anos para um público de vereadores interessados em discutir nossa democracia, mas o exemplo maior da mandioca na política talvez venha da quantidade de candidatos que utilizam o produto como nome na urna. Em 2012, por exemplo, localizei 25 postulantes ao cargo de vereador espalhados pelo Brasil. Dentre eles, 23 não eleitos ou suplentes, e dois exitosos. Jorge Mandioca ocupa cadeira legislativa em Baependi, Minas Gerais, e por lá atende como Jorge Elias de Souza Lemos – Mandioca só na urna. Já em Guaraci, interior de São Paulo, Mandioca Levi é segundo secretário da mesa diretora, e também deixou a mandioca na urna, atendendo pelo nome de Olimpio Antonio Levi. Curioso nessa história toda é que ambos são do PSDB, ou seja, estaria a presidente Dilma, num momento de dificuldade política, “saudando a mandioca” numa espécie de mensagem em código? Difícil dizer, mas gostaria de colocar mais uma cidade nessa história, para compreender o perfil surreal do discurso de nossa mandatária. Na mineira Itanhandu, Joaquim Arnoldo Evangelista Silva do PT (do B) é o prefeito. E por falta de recursos, bem como com o intuito de evitar o pagamento de horas extras que fazem a prefeitura extrapolar limites legais com gastos de pessoal, ele resolveu sair de casa mais cedo e varrer a rodoviária. O vídeo ganhou as redes sociais e Joaquim do Milho, como é conhecido, ficou famoso. Então é isso? Ao comungar a mandioca e o milho Dilma flertou com a oposição (os mandiocas) e anunciou o corte de gastos excessivos (o milho). Será? Como dizem os jovens: “fica a dica” ou “só que não”? Vai saber…

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