Os machos e os covardes

Humberto Dantas

31 de agosto de 2015 | 06h47

Fico aqui me perguntando se o senador Fernando Collor de Mello (PTB) “apenas“ deu ênfase a um traço de nossa cultura política, onde alguns representantes se julgam acima de qualquer aspecto ético, moral e legal para agir; ou se o seu gesto “somente” foi capaz de inspirar políticos, que a partir de 05 de agosto, iniciariam uma fase que lhes dá o direito fazerem e falarem o que bem entendem em um plenário. Tudo bem que entre a ofensa de Collor à mãe do Procurador Geral da República e o tiro que seu pai, também senador, deu para matar um colega em plenário os otimistas vão dizer que existe “evolução genética”. Mas sejamos sérios: o que Collor fez, ao ofender Janot em plena tribuna, destrata 200 milhões de brasileiros. O palavrão foi proferido do mais relevante local de um parlamento, e se aquilo não é quebra de decoro, nada mais será. Covardes!

 

Dias depois daquele lance deplorável, deprimente e pequeno – tão pequeno quanto o sentimento que o brasileiro nutre por seus representantes – assistimos algo que pode ser apenas uma coincidência. Apenas mais um lance bizarro de nossa cultura violenta e da mais absoluta falta de nível político. Buritis é uma cidade nova no interior de Rondônia. Não estou falando da localidade mineira, mas sim do município criado em 1996 na região Norte do país. Por lá vivem cerca de 30 mil pessoas, e como em muitos lugares do país os políticos parecem mais preocupados com seus negócios próprios. Assim, a prefeitura está sendo investigada pelo Ministério Público e é acusada de pagar algo que ficou conhecido no jargão nacional por mensalão. Entre 2013 e 2014 fala-se em R$ 5 milhões distribuídos em troca da aprovação dos parlamentares a temas de interesse do prefeito. O resultado: ação de cassação contra o Executivo e alguns vereadores. Mas pra variar a política leva os representantes a pensarem – sabe-se lá com base em quê ou em quanto – no arquivamento do processo. Numa dessas idas e vindas do procedimento o vereador José Borges (PMDB) tomou a palavra na tribuna. De lá dizia algo do tipo: “É muito fácil. Vou assumir a responsabilidade para fazer, mas vossa excelência é covarde”. Ele se referia à reabertura de processo contra o prefeito. E por “covarde” entenda “quem age com temor diante de alguém ou de algo” ou “quem não apresenta valentia”. Não se trata exatamente de um elogio, mas precedida pelo termo “vossa excelência” poderia soar como uma característica crítica a um colega. A despeito de tal argumento, é óbvio que o termo ofende, magoa e aborrece. E também é claro que sua vítima, um colega de parlamento, poderia pedir punição, acreditar nas regras, solicitar a palavra, adensar o debate. Mas não. Isso porque no Brasil “cabra macho”, no calor dos fatos, não acredita na justiça. Quando ofendido o sangue embaça a vista. Normalmente é isso que os machos dizem. Não estou falando dos homens, sobretudo daqueles decentes que podem ser chamados de cidadãos. Estamos efetivamente nos referindo àqueles que diante da palavra “covarde” precisam provar no braço que são maiores que a avaliação alheia.

 

Assim, Adalton César Catrinque (PR), aquele típico apresentador de programa que incita a violência nos meios de comunicação, não teve a menor dúvida. A cena que circula pela internet, divulgada pelo Portal UOL, não mostra o agressor, mas sim aquele que ocupava a tribuna (Borges). Contra ele o voo solitário e quase certeiro de um microfone sem fio, girando pelo ar. Por estar ligado, ao atingir o pavilhão o objeto fez barulho grande. Ou seja: o microfone bateu na bandeira, ofendendo o parlamento, o colega, a sociedade e seus símbolos. Catrinque, o macho de plantão, foi retirado do plenário pela Polícia Militar. Mas ao invés de ficar detido ou de ser suspenso imediatamente da casa de representação, Catrinque voltou ao plenário depois de se acalmar. Quanto ao processo de expurgar o prefeito da política: foi arquivado em 11 de agosto, ironicamente o dia do advogado – o representante da justiça. Mas, e enfatizemos o MAS, a Câmara já recebeu nova representação. Com ou sem microfones voadores, o caso não teve fim. Sobre agressor e agredido a reportagem UOL não conseguiu contato. Precisava? Acrescentaria?

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