Os jovens e a política – mudanças pouco notadas!

Os jovens e a política – mudanças pouco notadas!

Humberto Dantas

28 de março de 2016 | 07h36

Semana passada eu participei de um encontro com políticos de diversos partidos. Numa mesa de debates afirmei que parcela da geração de jovens que aí está pode nos preparar surpresas positivas e participativas em relação às suas expectativas sobre política. Todos os representantes partidários discordaram de mim, alguns com ar de deboche. Faz alguns poucos meses, num encontro de uma legenda em especial, afirmei a mesma coisa e uma vereadora-professora do interior de São Paulo riu alto, pedindo que eu dissesse onde encontro esses jovens interessados.

Não tenho visto graça e tampouco estou ficando louco a ponto de merecer falar sozinho. Não sou eu que tenho gozado de galopante desconfiança por parte da sociedade. Os cientistas políticos sequer aparecem nas pesquisas que medem a proximidade dos cidadãos em relação às instituições. Assim, os políticos parecem imersos demais em seus limitadíssimos mundos. E pior: já não conseguem dialogar com a geração mais jovem. As distâncias são imensas, falta-lhes o que Mills chamou na década de 50 de Imaginação Sociológica. Sinto informar, mas estou quase absolutamente convicto de que não há mais possibilidade de aproximação entre imensas maiorias de jovens e parte absolutamente expressiva dos políticos que insistem em manterem-se na tradicional política. O que teremos pela frente?

O futuro assusta parte expressiva dos partidos, setores da mídia e analistas em geral. Não vou dizer que uma onda de incerteza não me gera insegurança, mas também não consigo afirmar que o fenômeno de aproximação dos jovens em relação à política não faça parte de meu radar faz anos. Isso por uma razão muito simples: anualmente, desde 2011, dialogo com mais de 500 deles especificamente sobre tal assunto em ações realizadas pela Fundação Konrad Adenauer em escolas de ensino médio nas periferias de São Paulo. É o contato com o mundo real, adensado pelos cursos de política na Oficina Municipal, por palestras no ensino médio, por debates em faculdades e pela graduação do Insper. Diferentes classes sociais, perfis e formas de ver o mundo. Mas algo em comum: são jovens, e têm tantas outras coisas convergindo. Uma delas é o reconhecimento de que sem educação política não conseguirão caminhar no que se sonha em relação à Democracia brasileira. Isso não sou eu quem estou dizendo, as pesquisas mostram claramente. Poderia dar como exemplo duas delas, feitas por mim e Rodrigo Estramanho – professor da Escola de Sociologia e Política – apresentada em congresso Latinoamericano de Ciência Política em Lima, em 2015, e

Documento

. Mas a mais completa talvez seja aquela intitulada: “Sonho Brasileiro da Política”. Um primor, tocada por Carla Mayumi e Beatriz Pedreira. As responsáveis, diante do que constataram, deixaram de lado um pouco do que vinham fazendo em relação ao aprofundamento sobre o conhecimento do perfil desses jovens para apostarem fortemente em ações de educação política. Isso porque o levantamento mostrou que é isso que essa geração quer: conhecimento! Diante desse desafio, na semana passada foi lançado o vídeo que se encontra AQUI. O conteúdo encanta, sobretudo aqueles que buscam ter esperança na ação dos jovens. E ameaça quem imagina que o mundo acabou no instante conservador de quem tem preguiça e medo de enfrentar os novos tempos.

 

Sonho

 

Por fim, chamo atenção e voltarei com esse assunto aqui: em alguns poucos dias mais uma edição da Revista Cadernos Adenauer será lançada e reunirá atitudes e tentativas de definição da relação do jovem com a política. Aos políticos fica a dica: acompanhem esse movimento, pois em breve será impossível, a despeito de ideologias, dialogar com os jovens. Sobretudo se mantiverem o sentimento de que eles são alienados e desinteressados. Esse é o erro maior. Só espero que não seja tarde demais pra perceber, mas como eu disse no começo, temo que seja.

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