O vereador é o pé de pinga

Eder Brito

18 Dezembro 2013 | 08h30

Por Eder Brito

Muito já se ouviu falar da Costa do Sauípe, grande empreendimento turístico e hoteleiro, feito sob encomenda para endinheirados e que toma conta de um pedaço do litoral baiano, no município de Mata de São João. Se alguém ainda não tinha ouvido falar até 2013, certamente ficou sabendo da existência daquele pedaço de terras ricas há duas semanas atrás, quando ocorreu o sorteio oficial dos grupos da Copa do Mundo FIFA de 2014. Pois bem. Existe um outro local de nome parecido, ali perto, bem menos conhecido. É Porto de Sauípe, distrito de Entre Rios, outro município baiano.

Quem chega em Porto de Sauípe logo fica conhecendo a história de uma grande amendoeira, árvore imponente que fica na Rua do Motor, rua mais antiga da cidade, onde antigamente ficava um motor (!), responsável por produzir energia para todo mundo no distrito. A árvore, no entanto, é menos conhecida pelas amêndoas e muito mais conhecida por ostentar galhos lotados de Corote. Não à toa, ganhou o apelido de Pé de Corote.

Para quem não sabe, explico: Corote é a famosa marca de pinga que circula pelo nordeste, a preço extremamente acessível (R$ 1,50 cada garrafa, dizem os locais). Uma vez finalizado o forte conteúdo do recipiente, o recém-bêbado vai lá e deposita a rechonchuda garrafinha, amarrada em um galho da amendoeira (ou alguém sóbrio deposita por ele, quando o baque é forte demais para permitir ação muito complexa para o ser ébrio). É o verdadeiro pé de pinga. A “cerimônia” acontece frequentemente, já que debaixo do pé de corote fica um bar, frequentado diariamente, desde as seis da manhã por consumidores da “marvada”. “Teve uma época em que a árvore tinha mais corote do que folhas”, explica um morador.

Porto de Sauípe não queria ser o que se tornou. Vila de pescadores, a associação de moradores do local sempre combateu a exploração imobiliária que tomou conta da vizinha costeira. A intenção era manter a natureza intacta e o ambiente calmo de cidade pequena, protegendo principalmente a biodiversidade e o ecossistema do local, com trechos de manguezal rodeados pela Mata Atlântica.

Não conseguiram evitar muita coisa. Os operários que chegavam para trabalhar nas milionárias obras da Costa do Sauípe foram se alojando aos poucos, constituindo família e ficando por ali, no município vizinho. Influenciaram o crescimento desordenado de Porto, que agora tem alguns problemas para a Prefeitura de Entre Rios resolver. Assassinatos, prostituição e tráfico de drogas tornaram-se assuntos frequentes na imprensa local, só para citar os problemas mais radicais.

Combativo, o povo de Porto de Sauípe luta contra os desafios que o desenvolvimento do vizinho famoso lhe impôs. Na briga, acabou elegendo Elson Pacheco Alves (PSD-BA) para a Câmara Municipal de Entre Rios. É o primeiro político nascido e criado no distrito que se elege vereador. “Cabra” recatado, “fechadão”, Elson abriu uma exceção e foi celebrar a vitória nas urnas pagando várias rodadas de cerveja e de pinga para os moradores do distrito, lá no boteco, debaixo do pé de corote. Quem esteve lá, disse que a festa foi noite adentro.

O pé de corote foi desativado recentemente. Estava lá, lotado de garrafinhas, como de costume, mas uma tragédia abalou os moradores e o levou ao desmonte. Faleceu um rapaz querido de todos, de apenas 25 anos. Velho apreciador do pé de corote, bebeu tanta pinga que o fígado não suportou. Foi vencido pela cirrose. Em sua homenagem, na próxima quarta-feira, Porto de Sauípe vai ter que se contentar com árvores tradicionais de Natal.