O sabor amargo do convívio

Humberto Dantas

14 de julho de 2014 | 07h26

Quando a vaia soou na Copa das Confederações em 2013 foi possível notar que uma parcela da sociedade não parecia muito contente com o governo federal. A despeito da hostilidade concordou-se à época que a situação da classe política, em geral, não era boa. Arrogante como parte expressiva dos profissionais da área o marqueteiro de plantão no Planalto afirmou que devolveria à presidente, antes do final do ano, a popularidade perdida nos protestos de rua – o que a despeito de gastos e abusos não ocorreu. O estádio, à época, era apenas a continuidade de um desgaste amplo. E, diga-se de passagem: no Pan-americano não foi diferente pra cima de Lula. Magoado, o ex-presidente logo tratou de “reanimar” uma luta de classes que pouco existe. Se existisse, o mérito de seu governo não seria ter dado condições de consumo para a repetição de um padrão “odiado”, mas sim criado novo estilo de vida. Mas se isso é difícil demais: viva o consumo!

 

E na Copa do Mundo não foi tão diferente. Dilma foi hostilizada novamente, mas dessa vez de maneira grosseira. Seria uma vingança tensa em virtude de um país fantasioso pintado no pronunciamento da TV dois dias antes da estreia? Não importa: hostilidade tem limite e ele foi ultrapassado. Assim, lá estava Lula, o fiador e cabo eleitoral, e Gilberto Carvalho, este segundo defendendo que “uma elite branca” havia agredido Dilma. Mais um deslize: então o “governo do povo” armou um “evento elitista” e deixou de fora seus protegidos? Esqueça disso! Sem essa de segregar. A Copa é cara em qualquer lugar do mundo, é um negócio que pode ser rentável e apostamos nele. Mas será que alguns milhares de brasileiros que estavam nos estádios fazem parte de um segmento singular e mal educado da sociedade que xinga descarada e “orgulhosamente” a presidente da qual não gosta? Tenho certeza que não. Na nossa sociedade, a despeito das outras, educação é item raríssimo e tudo é questão de oportunidade. Assim, não creio que o ladrão rico seja mais criminoso que o safado pobre. Aposto que o pouco investimento que fizemos em ambos, no que diz respeito à transmissão de valores fundamentais para a vida em sociedade, nos cobra preços diferentes, mas cobra. Isso representa que tudo, ou muita coisa nesse país, é resultado de um custo oneroso de oportunidade: “se eu puder levar, levarei vantagem. Muita ou pouca, mas levarei”.

 

Duas cenas vividas pelo designar Fernando Mainardi em jogos da Copa reforçam a ideia. São apenas dois pequenos exemplos, mas isso aqui é um texto descontraído de um blog e não uma tese na USP. Ufa! Passei dessa fase! Cena 1: intervalo de jogo. Fila para o banheiro e rápida chegada ao mictório. Ao olhar para trás nosso torcedor vê o faxineiro entrando com um carrinho de limpeza. Para, e começa a retirar sacos alucinadamente de um compartimento do veículo. Lá embaixo está o produto do tráfico. Bebida alcoólica gaseificada de arroz, ou se preferirem, nossa maldita cerveja. A aglomeração é rápida, a venda expedita. O estoque acaba e as pessoas bebem rapidamente para voltarem aos seus lugares achando que levaram imensa vantagem sobre os R$ 10 cobrados pela FIFA. Quanta esperteza. Da elite? Ou da sociedade e de seus valores toscos em geral? Acredito na segunda hipótese, reforçada pela cena 2. Sorvete a R$ 10 na mão do vendedor em meio à partida. Nosso torcedor pede dois, e entrega uma nota de R$ 50. O vendedor volta R$ 36. “Mas não é R$ 10, de acordo com o cartaz pendurado no seu isopor?” E a resposta: “dez é lá embaixo, cobro dois pra trazer até aqui pro senhor”. O dinheiro volta, o sorvete é lançado pra dentro do container e certamente foi vendido para algum esperto. O sabor amargo do jeitinho brasileiro não compensa. E se nossa Copa “terminou” nos sete gols da Alemanha, em matéria de convívio social o resultado me preocupa mais, e não aparece num “apagão esportivo de cinco minutos” mas sim numa amarga história de descompromisso.

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