O Rio de Janeiro rasga seu cartão de visitas

Humberto Dantas

30 de novembro de 2016 | 08h18

Fui assaltado no Rio de Janeiro quando tinha seis ou sete anos de idade na praia. Tentava desengonçadamente empinar uma pipa de papel que ganhara de minha mãe. Molecada da caixa baixa (termo do filme Cidade de Deus) chegou e sem dó levou a linha de minha mão. Um dos meninos tinha o cabelo desoxigenado. Fiquei por anos com a cena na cabeça, e criei medo e antipatia pela cidade que muitos chamam de: maravilhosa.

Fui voltar ao Rio já nos anos 2000. Desfilei em escola de samba, fiz passeios, e entendi o sentimento de amor dos turistas. Em 2002 voltei pra fazer uma pesquisa na ALERJ e um deputado estadual queria dividir comigo o dinheiro destinado a cada entrevista que eu, pesquisador jovem da USP, fazia: “quanto você está ganhando pra tomar meu tempo? Vamos dividir parceiro!”. Voltei pra casa mal impressionado, bem mal impressionado.

Mais recentemente, a partir de 2009, voltei a ir com certa assiduidade para o Rio de Janeiro. Palestras, aulas, reuniões de negócios na fundação para a qual trabalho. Numa delas abri mão de utilizar aquele táxi especial que vende corridas a preços fechados e extorsivos no saguão do desembargue e fui pra fila dos amarelinhos. Lá esperei alguns bons minutos e embarquei num táxi. Já em curso o motorista começa o diálogo:

– Vai para onde?

– Praça Floriano amigo.

– Mas isso é aqui ao lado. Não dá nem R$ 10 – o táxi já fazia a alça de uma das pontes que circulam o aeroporto.

– Eu sei.

– Mas então vai ter que pagar R$ 20. Não tem condições eu esperar na fila por duas horas e faturar R$ 10 – sentenciou o mafioso.

– Táxi é taxímetro amigo, o que marcar eu pago.

– Então vai descer, e aqui é perigoso.

– Siga. Eu pago – indignado e lembrando o trauma de infância, com um notebook às costas.

Colecionei passagens desse tipo no Rio de Janeiro. Foram várias: bandeira dois em momentos em que isso era proibido, reclamações por subir ladeiras mínimas, caminhos alongados por pura malandragem, negativa de uso do ar condicionado, e a eterna queixa de que a vida estava difícil, dura, sofrida e que paulista tem dinheiro e carioca sofre. Taxista bom no Rio de Janeiro, e em alguns outros tantos lugares do mundo, é raridade. Alguns foram encontrados. Peguei cartão, ligava, mas nunca deu certo conciliar. Uma pena.

Nas Olimpíadas minha relação com o cartão de visita, com o hall de entrada da cidade mudou. É isso mesmo: taxista é cartão de apresentação. Simpatizar com o que te leva pra fora do aeroporto é meio caminho pra relaxar e gostar. Eu tinha acabado de conhecer um aluno do CLP que quando perguntado sobre um problema complexo em gestão pública havia me respondido: “tirar o passageiro do aeroporto do Rio de Janeiro com o sentimento positivo trazido pelo transporte que ele escolheu”. Era servidor público municipal e me alegrava saber que alguém estava pesando nisso. Pois bem, deu certo.

Desembarguei na cidade em meio aos jogos. Acionei o aplicativo Uber com gosto de vingança na boca: “nunca mais vou ter que andar de táxi aqui”. Fui direcionado para um shopping center (a praia do paulistano) grudado ao Santos Dumont. Cheguei a um estacionamento descoberto e lá estava o “Uber Lounge”. Um local seguro onde você facilmente encontra o carro que pediu. Tudo organizado. Sair do aeroporto com ar condicionado, água, bala, música, sem manejar dinheiro, acertar corridas, waze na tela determinando o caminho. Pois bem: essa semana Eduardo Paes, em tom de despedida, sancionou lei que proibiu o uso do aplicativo na cidade – a ideia foi aprovada na Câmara de Vereadores, que a exemplo de São Paulo concentra parte da máfia do táxi. Devem ter ocorrido problemas, deve ter sofrido pressão, deve estar magoado com a derrota acachapante dos seus, deve estar com medo do destino de seu fiador político, mas tenha certeza que rasgou o mais razoável cartão de visitas da cidade. Voltar ao Rio de Janeiro e entrar na cidade pelo aeroporto Santos Dumond volta a ser um sacrifício dominado por uma máfia de maus profissionais, onde existem exceções, mas onde costuma vigorar a regra da malandragem, da safadeza, da corrupção e do que existe de pior para ser mostrado em nosso país. E aí Crivela?

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