O rei do elevador: “desce!”

Humberto Dantas

28 de março de 2014 | 08h15

O Brasil tomou um susto quando uma revista resolveu falar sobre o Rei do Camarote. O país tem ainda o Rei do Futebol, a Rainha dos Baixinhos e o Rei – esse último é simplesmente o rei, tamanha sua importância. Falo de um famoso cantor que a história tratará de chamar sempre de Rei.

 

Movido por um sentido monárquico com perfil absolutista o país segue em seu ritmo cultural. Semana passada eu acho que conheci, mesmo não sabendo de quem se trata, o Rei do Elevador – ou pelo menos um deles, pois devem existir outros. O Anexo IV da Câmara dos Deputados é um prédio de dez andares e um subsolo – se a configuração não for exatamente essa peço desculpas, mas não tenho intimidade com o empreendimento. Em muitos de seus andares ficam os gabinetes de uma série de deputados federais. Como meio de transporte elementar existem oito elevadores próximos à recepção. Três deles estão reservados para as excelências: para os “nobres” parlamentares que vivem no país dos reis, que sonha em ser republicano, mas vive escorregando em seus gestos monárquicos.

 

Assim, enquanto algumas poucas dezenas de deputados que têm ali seus gabinetes possuem três elevadores – tudo bem que um deles pode ser utilizado por mortais com deficiência – os milhares de funcionários e visitantes precisam aguardar em longas filas os outros cinco. E é isso mesmo o que acontece: filas imensas. Várias viagens. Idas e vindas, o antigo “plim” sincronizado à seta vermelha que desce ou à verde que sobe. Os ascensoristas reclamando do calor.  Plim, plim, plim, até chegar a sua vez. Tem até um senhor que organiza o fluxo: “vai pro quatro!”, “Espera na fila, tá lotado!”, “Volta! Deu sinal de sobrepeso”. Tudo confuso e deselegante. Mas fique calmo. Você pode estar num dia de sorte.

 

Ele aparece em silêncio. Humilde, terno cinza, camisa grená, gravata cinza. Chama o elevador e olha em volta. O de número sete abre a porta, plim, e a seta verde acende. Ele está sozinho ao lado da porta. Não participa da fila. Entra no carro – como dizem aqueles que têm intimidade com elevadores – e se volta para a porta. Quando termina de virar o corpo percebo que é um parlamentar. O broche na lapela diz tudo. Ele se impressiona com o tamanho da fila e cria uma regra nova, ao sabor dos reis. Dirige-se aos últimos da fila com um discreto “ei!”, de dentro do elevador. Os últimos se voltam. Os primeiros já perderam muito tempo, e no país da vantagem e do jeitinho o rei pouco se importa com isso. Ele continua: “venham por esse aqui. Vai subir vazio!”. Uma pessoa adverte-o: “esse é dos parlamentares”. E ouve como resposta: “eu sei. Eu sou deputado, e estou convidando vocês para subirem comigo!”. Na frase, ênfase para o “convidando”, com a letra “a” bem longa e carinhosa. O elevador lota. Os novos princípios da sustentabilidade justificariam a gentileza, mas certamente não foi isso que o motivou. Ele fez o favor, ele criou o laço que durará segundos. Ele reinou, a despeito de outros reinarem numa horda de reizinhos dos elevadores. Certamente a subida foi repleta de gracejos e elogios. A Casa do Povo tem mais um rei, o Rei do Elevador, e seus 512 nobres colegas para os quais existem regalias infinitamente maiores que três simples carros ascensores. Que tristeza. Plim, setinha vermelha acesa: desce… Até onde? Já não passamos do subsolo?

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