O que foi a vitória de Dória? Uma possível interpretação…

Humberto Dantas

04 de outubro de 2016 | 11h44

Fenômenos não ocorrem e são explicados por uma única variável. Tampouco podem existir dependendo de uma única interpretação. Política é humana, permite olhares distintos. Com alguns concordamos mais, com outros menos. Alguns têm tom mais ensaístico, outros se amparam em tentativas de converter em matemática o que vivemos na prática. Obviamente a ciência tem emprestado mais valor a certas interpretações. Portanto, o que lanço aqui é apenas uma hipótese a ser verificada. Um teste de reflexão que lancei domingo.

Muitos apontam a vitória de João Dória Jr. como resultado do êxito do governador de São Paulo. Dória é poste, assim como foram Pitta e Haddad. E isso alavancaria Geraldo Alckmin às eleições presidenciais de 2018 – a despeito de postes também atrapalharem. Se a interpretação que dou ao fato for verdadeira, estamos diante de uma verdade parcial. Internamente, dentro do PSDB, o governador paulista comprou briga com lideranças estaduais e nacionais. Saiu mais forte no ninho tucano, e já fez Aécio Neves falar em prévias para o pleito vindouro. A possível vitória de João Leite, do PSDB de Belo Horizonte, ocorreria de forma muito menos emblemática em segundo turno. E o ex-goleiro do Atlético Mineiro é político experiente, que depende menos de Aécio que Dória de Alckmin. Tem como adversário, por sinal, um dirigente de clube que afirmou não querer apoio dos políticos derrotados. Empresário bem sucedido, Khalil estaria disposto a adotar o discurso do João Trabalhador?

Mas voltemos ao que disse o senador das Gerais e presidente nacional do partido sobre as prévias. E lembremos que a capital paulista já provou que prévia é algo que o PSDB precisa aprender a fazer para carregar semblante de democracia. Em 2012, um candidato derrotado nas urnas entrou atrasado na disputa interna e sequer foi escolhido com a votação que esperava ter. Em 2016, as prévias tucanas fizeram gente sair da legenda disparando contra uma série de abusos que o próprio partido discute internamente. A coisa não ficou boa, e a regra parece que precisa ser mais clara e pesar de forma mais incisiva. Tucano que diz na TV que prévia UNE está fazendo média. Pois união em São Paulo não se vê desde 2008. A despeito de tudo isso, Alckmin se fortaleceu internamente. E isso é fato.

Mas daí para achar que é candidato favorito e forte para as eleições de 2018 esbarrará em uma das possíveis interpretações para o fenômeno municipal. Que em nada tem a ver com níveis esperados de abstenção na casa de 20 pontos e votos inválidos que têm variado de forma diferente em cidades brasileiras.

João Dória Jr. foi eleito em primeiro turno, de forma meteórica, em ritmo acelerado como seu slogan e negando fortemente ser político. Foi tão rápido que sequer deu tempo de os adversários criticarem ou baterem. Dória, de forma clara, se colocou ao lado do paulistano. Mas quem é esse sujeito? Quem é esse agente? Sua campanha lembrou parte do que se viu com Fernando Collor de Mello em 1989 – sem querer comparar as figuras, por mais que fisicamente lembrem estereótipos semelhantes. Enquanto Marta, Haddad, Erundina e Russomanno falavam de política, Dória fez questão de se colocar fora dela. Prometeu, se comprometeu, assumiu, falou, mas negou que estivesse fazendo política. Se disse gestor, se mostrou gerente. A última vez que um poste foi eleito gerente, caiu na desgraça do impeachment. Mas Dória nega a política apenas no discurso, sua empresa vive disso! Sua chapa elegeu 25 vereadores, ele pode negociar facilmente com 44 dos 55 parlamentares, e certamente fará isso. O gerente acelerado não cairá na mesma armadilha da gestora centralizadora que odiava o parlamento. Mas esse não é o ponto central de minha análise.

Dória vendeu uma imagem com a qual parte dos eleitores sonha. Não todos, obviamente, mas ele dialogou e desvendou um universo volumoso e interessante. Soube encontrar algo diferente, e aqui se parece com Collor. Em 1989, os brasileiros buscavam melhorar de vida, e enquanto cerca de 20 candidatos falavam dos avanços da Constituição de 1988 e da garantia da Democracia, o ex-governador de Alagoas tratava de se dirigir aos descamisados, alimentando seus sonhos de uma vida melhor. O Brasil de agora, a São Paulo de hoje é outra. Parte (parte!) da miséria deu lugar a uma classe média ávida por consumir. Foi assim que Lula se sustentou no poder, trocando a pobreza pelo consumo, possibilitando acesso que sempre utilizou em seu discurso como resultado de um milagre econômico que levou o pobre ao avião, à mesa e à faculdade. Pois nesse momento Lula perdeu essa possibilidade de discursar. O anti-petismo agudo criado por setores da sociedade e a crise econômica o calaram nesse canto. Sobrou pra anti-política. E o exemplo do João Trabalhador, que acorda cedo e enriquece é emblemático na cidade de São Paulo. Seria Dória parte do sonho do paulistano? O desejo de acesso? A vontade de consumo?

Se isso for verdade, é pouco provável que Geraldo Alckmin tenha sucesso presidencial. Sua força seria interna e articuladora. Como ele poderá dizer que não é político? Se desde a década de 80 está na linha de frente das campanhas? O que Dória pode ter sinalizado para o PSDB é a demanda pela anti-política e pelo quanto um empresário extremamente hábil em termos de comunicação – numa campanha muito boa em termos de ritmo – e bem sucedido em matéria de consumo e riqueza transmitiu para a sociedade. Não é à toa que dia desses, numa conversa informal com um grande amigo que trabalha para o PSDB, ele me disse que não se assustaria se Luciano Huck fosse procurado até 2018. Devaneio? Trágico? Pode ser, mas esse é o peso que o país paga quando vira as costas para a política. Que seja o João Trabalhador um GRANDE político, capaz de governar essa grande cidade, pois o MAL de minha terra eu nunca desejarei.