O prefeito que ressuscitou

Eder Brito

01 Abril 2015 | 15h38

Jesus Cristo que me perdoe, mas existem outros casos de ressurreição que também são interessantíssimos. Na política brasileira, inclusive. E não falo daqueles nomes que fazem história, “pecam”, desaparecem e depois “ressurgem” com novos mandatos (temos um caso clássico no Senado). Falo daqueles que efetivamente viram a morte de perto e conseguiram driblar o destino fatal.

José Antônio Fernandes (PSDB), o Zé Antônio, atual prefeito de Areias (SP) é talvez um dos mais emblemáticos exemplos nesse sentido. Em 2009, em pleno exercício de seu terceiro mandato, foi vítima de um atentado. O tiro que atingiu sua perna naquele dia partiu de um revólver empunhado por João Bosco Rezende de Souza, o popular João Patinho, então filiado ao PV, ex-prefeito de Areias.

A rixa era antiga, oriunda de uma disputa política que nasceu de forma mais direta durante as eleições de 1996, dentro daquele clima eleitoral de cidade pequena (Areias tem cerca de 4 mil habitantes), onde os votos são disputados de casa em casa, de prosa em prosa. Aquele foi o ano em que Zé Antônio venceu Patinho pela primeira vez. Reeleito em 2000, Zé governou por oito anos e viu seu nome se tornar referência de boa gestão no Vale do Paraíba, na divisa de São Paulo com Rio de Janeiro. Patinho só daria o troco em 2004, quando foi eleito prefeito. Teve um governo mais “complicado” que culminou em processos judiciais e acusações de fraudes em licitações e crimes eleitorais.

Zé Antônio voltou em 2008. No final do primeiro ano de mandato, quando visitava as obras de uma nova praça do município, sofreu o atentado. Ao seu lado, também foi baleada a professora Cristiane Guimarães, “traidora”, na visão de Patinho, já que naquele momento estava mais próxima do PSDB, mesmo depois de ter um cargo durante sua gestão. Com um tiro na cabeça, ela não resistiu e faleceu. Patinho ainda se esforçou para tirar a vida de Zé Antônio. Viu que o tiro na perna não ia dar conta e se aproveitou da vítima caída no chão. Posicionou o revólver na boca do prefeito e puxou o gatilho. Nada aconteceu. As balas haviam acabado. Desistiu, deixou as vítimas para trás e saiu “cantando pneu”.

O crime foi bastante noticiado à época, mas pouca gente se atentou à parte da “ressureição”, detalhe aterrorizante do caso, só conhecido e comentados pelos moradores de Areias e funcionários da Prefeitura (caso das colegas que compartilharam tantos detalhes comigo, mas preferem não se identificar) e que até hoje convivem com Zé Antônio, eleito para seu quarto mandato em 2012. Patinho faleceu em 2010, vítima de um infarto, ocorrido quando entrava para uma audiência no Fórum de Queluz, onde seria julgado.

Também naquela época, lideranças políticas da região tentaram criar teorias para explicar o atentado. Diziam que a dor da derrota e a solidão de ficar sem mandato e sem apoio político teriam deixado Patinho descontrolado, perdido em meio às acusações contra sua gestão. Também se fala de ciúmes, talvez pela amizade e proximidade de Zé Antônio com o governador Geraldo Alckmin. Outros cogitam pura inveja, pois Zé sempre foi um fazendeiro rico da região que doa seu salário de prefeito para o asilo de Areias.

Independentemente do motivo, Zé Antônio ressuscitou. E hoje faz questão de dizer aos quatros cantos que não se cansa de rezar e agradecer diariamente àquele outro senhor cuja ressurreição celebramos no domingo.