O peso dos 100

Humberto Dantas

02 Junho 2014 | 08h10

Nos livros de História aprendemos que os Cem Dias, ou Cem Dias de Napoleão, foi um período marcado pelo retorno do imperador francês ao poder após fuga do exílio em Elba. Sua chegada a Paris ocorreu em 20 de março de 1815 e terminou com a derrota na Batalha de Waterloo, cerca de 100 dias depois – óbvio! O período é conhecido também como o Governo dos Cem Dias. E muito pouco provavelmente tem forte relação com a sina de governantes e jornalistas pelo número. Por que todos gostam de falar nos “primeiros cem dias de poder”? O que vemos nas prefeituras é o tom de propaganda associado à marca. Isso representa dizer que quando um governante completa cem dias de governo os jornais preparam sínteses do período para observar se promessas começaram a sair do papel, recebendo como resposta campanhas, encartes e declarações em tom de balanço por parte dos mandatários.

 

Tudo muito bonito, tudo muito simbólico, mas é mesmo possível fazer algo em cem dias? Depende. Há prefeito que entende que revoluciona no período, há outros que adotam tom cauteloso e afirmações do tipo: “herdei o caos, não formulei o orçamento desse ano – enviado à Câmara por meu antecessor – e não posso fazer milagres”. Realismo e conveniência estabelecem um pacto comum nesses casos.

 

Em São Paulo, por exemplo, Fernando Haddad (PT) lançou uma primeira versão do seu plano de metas sem itens prometidos em campanha – o que já simboliza um problema. Buscou investir sobre a bandeira do fim da inspeção veicular, criou a necessária e relevante Controladoria Geral do Município, buscou tirar do papel o Bilhete Único Mensal, proibiu a circulação de carros no Largo 13, desapropriou terreno para construção de moradias populares no Jardim Iguatemi, transferiu para junho o aumento de tarifa – e viu a cidade pegar fogo durante os manifestos, demonstrando baixa habilidade para dialogar no início dos protestos. Ademais, engavetou a Nova Luz, iniciou processo de consulta para o Novo Plano Diretor, encalhado na Câmara Municipal até hoje, e congelou verbas orçamentárias para arrefecer o impacto da dívida da cidade. Esta, por sinal, esteve presente em seus primeiros discursos como prefeito, algo bem diferente do que pregou na campanha. Em debate no Estadão, quando provocado por Levy Fidelix sobre a dívida da cidade desconversou. Incoerente? Para dizer o mínimo: sim. Mas em nome de algo ao estilo “tudo é festa”, Haddad devolveu os blocos carnavalescos às ruas, algo proibido por seu antecessor.

 

E nas outras cidades? Em Ipu, no Ceará, Sergio Rufino (PC do B) chegou a exonerar 300 concursados, por suspeitas no processo seletivo de seu antecessor. Enfrentou a dengue, recebeu retroescavadeira e tudo o mais. Em Bom Despacho (MG) o nome sugestivo exigiu que o prefeito, eleito em turno único com 35% dos votos, enfrentasse todo tipo de adversidade. A fala de Fernando Cabral (PPS) ao site de Ítalo Coutinho era clara: precisaremos de um ano e meio para colocar o caos em ordem. O prazo vence esse mês. Colocou? Pois é… A marca de 100 dias é um ícone que parece permitir diferentes discursos e estratégias, restando ao eleitor atenção aos 100 primeiros e aos outros 1.360. E aproveitando a lógica dos números, esse texto comemora o centésimo post publicado no nosso blog. Cem histórias, cem causos, alguns sem nexo, outros sem muita noção, mas todos, sem dúvida alguma, apontando o dedo para algum aspecto central de nossa centenária cultura política brasileira, essa sim: bem sem noção!