O perdedor solitário

Humberto Dantas

21 de outubro de 2013 | 11h00

Cresci ouvindo que para Nelson Rodrigues toda unanimidade é burra. Mais velho entendi a sentença e percebi que o conceito é quase o avesso do que entendemos hoje em dia por democracia, que pressupõe debate, discordância, contraponto e coisas do tipo. É natural, no entanto, que a unanimidade exista em algumas ocasiões. Mas ela é exceção, e na política democrática é corpo estranho.

 

A despeito de tais reflexões, em pleno sertão paraibano encontramos o município de São Domingos de Pombal. Pouco importa aqui a morada das aves que arrulham, mesmo porque, apesar de constar com esse nome nos arquivos do Tribunal Superior Eleitoral, há quem diga que a cidade tornou-se apenas São Domingos em 2003. Assim, lembremos que Domingos foi um religioso espanhol que viveu entre os séculos XII e XIII. Em parte de sua vida perambulou solitariamente pelo norte da Europa pregando a palavra de Deus em nome do papa. Essa solidão pouco combina com o ambiente democrático atual, mas talvez inspirada pelo santo que lhe empresta o nome, São Domingos-PB tinha candidatura única para a prefeitura em 2012 – uma titular e seu vice. Uma aliança bipartidária entre PMDB e PP, as mesmas legendas do artificial ambiente Arena e MDB. Mas esqueça dos anos de chumbo, partidos em pequenas cidades são meras ferramentas para a disputa de eleições.

 

E se não bastasse a solidão na corrida pela prefeitura, para o preenchimento das nove vagas de vereador foi dado um “amplo leque” de escolhas: 10 candidatos deferidos. Dentre eles três mulheres, cinco parlamentares em exercício de mandado (o que impossibilitava uma ampla renovação) e três membros da família Nobrega, que se somavam à candidata ao Executivo e seu vice do mesmo clã. Perceba: em São Domingos era mais fácil ser eleito. Dos 12 cidadãos envolvidos nas eleições apenas um ficaria de fora. E o feito é de Edson Nunes e seus 34 votos – pouco para os 122 de Aliam Maria, a penúltima colocada. Assim, temos cinco Nobregas eleitos, sendo três ao Legislativo, e apenas um perdedor. E não é que ironicamente o destino quis que Edson Nunes fosse homônimo do autor da clássica obra “A Gramática Política do Brasil”, onde podemos compreender facilmente o sentido do clientelismo em nossa sociedade? Seria o caso de utilizarmos o conceito para entendermos São Domingos? Poderíamos juntar o ‘clientelismo’ de Nunes, a ‘unanimidade’ de Rodrigues, a ‘solidão’ de Domingos e lembrar que em suas origens, ainda no século XIX, a cidade surgiu em torno de um ‘curral’, substantivo facilmente associável a mais uma face da cultura política brasileira. Em defesa do município o argumento de que a democracia precisa de tempo para amadurecer, e o povoado se emancipou apenas no plebiscito realizado em 1993, tendo sua primeira eleição em 1996. Pobre Edinho, com 26 anos pagou o preço da imaturidade local e tornou-se “o perdedor solitário”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: