O panelaço da panelinha

Humberto Dantas

16 de março de 2015 | 07h35

Em 1984 eu tinha entre oito e nove anos. Morava em Santa Cecília, bairro central da capital paulista. Eram tempos efervescentes, o Brasil lutava pelo direito de voltar a eleger diretamente seu presidente da República. A emenda à Constituição que buscava esse direito tramitava desde 1983, apresentada por Dante de Oliveira, que anos depois escreveu livro sobre o assunto. Manobras regimentais da base governista impediam que o projeto lograsse êxito. Notando que nunca seria capaz de vencer a queda de braço, a oposição votou de forma simbólica a temática, que “ganhou, mas não levou”. E apesar de não ter avançado naquele momento, em 1985 o Colégio Eleitoral conduziu um civil ao poder – idealmente escolheram Tancredo Neves, mas quem governou mesmo foi José Sarney. Voltemos ao ano de 1984. Foi ali que participei do primeiro movimento político de minha vida. Minha mãe me deu uma panela, uma colher de pau e disse: desce, vai bater panela com o pessoal lá embaixo que eu fico aqui em casa piscando a luz. O resultado foi impressionante. O parquinho (playground é muito moderno) estava tomado de amigos. A sensação era de que todo mundo, o mundo inteiro, havia combinado de fazer a mesma coisa. Diversos apartamentos piscavam, o barulho das panelas era ensurdecedor. E olha que estávamos numa ditadura e ninguém tinha “zapzap” ou outras tecnologias pra ficar instigando movimento. Foi genial. Uma lição. Mas não sei se de fato a coisa foi imensa, a despeito de minha sensação e da perda de uma panela do enxoval de mamãe, toda amassada.

Faz alguns dias presenciei outro panelaço. Mas não tive a mesma sensação. Primeiro porque estava bem preocupado em assistir ao motivo da manifestação na TV. Segundo porque alguns trocaram a colher de pau pela língua ferina, pela ausência de um mínimo de educação: xingamentos em série. A ditadura acabou em 1985, as pessoas perderam o medo de falar, mas pena que falam de forma tão despreocupada com a educação. A presidente estava na TV, em mais um de seus pronunciamentos em cadeia nacional. Descrevia um país menos cor de rosa do que aquele pintado nas eleições, mas disparava contra os pessimistas – ou seriam realistas? “Contra” parte da imprensa Dilma foi clara, passou seu recado. Longo, por vezes repetitivo e um pouco atrapalhado. Mas passou. E parte da sociedade não gostou. Gritou, buzinou, piscou a luz, reclamou. Tá difícil, e ela sabe disso. Seu partido afirmou que a oposição “financiou” o evento. E qual seria o problema? Não foi o PMDB a “financiar” os atos de 1984? Nos anos 90 quantas passeatas reuniram pessoas pedindo o “Fora FHC”, o “Fora FMI” e a “Moratória da dívida externa” “financiadas” pelo PT? Oposição é isso. Isso vale. De forma civilizada, por mais que as pautas pareçam radicais: vale.

Mas que não pensem nossos leitores que isso só ocorre em relação a questões federais. Coloque num buscador da web os termos “panelaço” e “prefeito” e verás o resultado. Em 2012, servidores públicos de Manoel Urbano, no Acre, mandaram ver nas panelas em frente à casa do prefeito Sebastião Mendes (PP), que havia sumido. Outro gesto desse tipo foi organizado contra Rodrigo Neves (PT), em Niterói, em setembro de 2013. A pauta era difusa, repleta de temáticas, e o encontro ocorreria na porta da casa do prefeito. O endereço, inclusive, constava em convocação postada no Facebook. Se fez sucesso não sei dizer, mas parece que rolou. E a despeito de tantos outros exemplos de uma prática que parece mais comum do que imaginamos, chamou a atenção o panelaço realizado no final do ano passado contra o prefeito de Tabuleiro do Norte, no Ceará. Por lá o motivo era o não pagamento dos salários dos professores da rede pública. Para se defender o prefeito reclamou, em matéria da TV Jaguar, de inúmeras questões relacionadas ao movimento, com o intuito de desqualifica-lo. Primeiro afirmou que tinha servidor de cidade vizinha, em situação muito mais grave, indo pra Tabuleiro pra tumultuar. Segundo afirmou que a cidade não era Casa de Nóca – entenda algo semelhante à Casa da Mãe Joana, de acordo com a Enciclopédia Nordeste – para que fosse feita a algazarra. Terceiro, para emendar, o mais genial: “o panelaço foi realizado por uma panelinha”. Isso mesmo, nada muito diferente do que ministros disseram sobre o evento de março de 2015. Mas o prefeito teve essa sacada, dizendo que um pequeno grupo o hostilizava, e que tudo seria resolvido. Detalhe: interessante que Marcondes Moreira lembrou suas origens, dizendo que também era sindicalista, filiado ao PT. Curioso né? Ele não é o primeiro a governar criticando aquilo que fazia no passado. E nem será o último. Por sinal, o PT está longe de figurar sozinho no quesito incoerência, apesar de sua estrela brilhar intensa nesse ponto.

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