O ‘não papel’ de um vereador

Humberto Dantas

13 Dezembro 2013 | 08h18

Um vereador de uma cidade do Tocantins dizia num encontro pastoral em 2008: “termino meu mandato sem saber o que faz um vereador. Desisto”. O sentimento é reforçado por uma pesquisa realizada por escola do Senado onde um percentual significativo de parlamentares locais vivia sob o mesmo dilema – o levantamento nunca foi divulgado da forma como merecia. Para completar, em 2008, a Associação dos Magistrados Brasileiros lançou pesquisa feita pelo Vox Populi onde apontava que mais de 60% dos entrevistados esperavam favores dos legisladores das cidades: dinheiro, emprego, pagamento de despesa funerária, proteção etc. Essa é nossa cultura política. Um verdadeiro drama, diria Galvão Bueno.

 

Galvão Bueno? É isso mesmo. Vale a pena resgatar o narrador esportivo, pois nesse ambiente os jogadores de futebol encontraram terreno fértil. Se na esfera federal assistimos nomes como Romário (RJ) e Danrley (RS) nas arenas locais não faltam atletas. Em São Paulo, por exemplo, Biro-Biro já foi vereador, assim como Ademir da Guia. O Divino, inclusive, não foi tão esplêndido. Em 2005 foi acusado por seus funcionários de desviar salários da equipe. E em 2012 lá estavam seus cabos eleitorais pedindo votos nos arredores do Pacaembú no clássico entre o seu Palestra e o rival Corinthians.

 

No embalo da paixão esportiva torcedor também se elege. Raimundo Cesar Faustino (PT) era aluno de um curso de Iniciação Política no Centro de Integração da Cidadania em 2009. Eleito em Francisco Morato nas eleições do ano anterior, sua carreira política tem como motor sua devoção à Gaviões da Fiel. Descontraído e interessado no conteúdo ministrado, suas vestimentas não deixavam dúvida de seu amor pelo Corinthians. Ao seu lado um palmeirense igualmente devoto lhe fazia companhia. Era o assessor. Aos risos sua contratação foi justificada em nome do equilíbrio democrático do gabinete. Não foi isso que pensou Capá, apelido de Faustino, quando se envolveu em briga nas arquibancadas do novíssimo Mané Garrincha em Brasília no jogo contra o Vasco – que já teve o ex-presidente Eurico Miranda como deputado federal e o atual presidente e ex-craque Roberto Dinamite como estadual. O palco da Copa foi cenário de barbárie em agosto. O vereador reconhece que chutou rivais sem pensar, mas justificou a violência criticando a organização do evento e o preço do ingresso. Teria poder para isso? Nunca! Ninguém tem. No seu caso, o máximo a ser feito era uma moção de repúdio, documento que costuma ligar nada a canto algum, mas serve para “desopilar o fígado” da classe política.

 

Pois vai ver foi esse o objetivo do ex-vereador de Curitiba Juliano Borghetti (PP), e ex-genro do deputado Rubens Bueno (PPS), ex-marido de deputada italiana no Brasil, irmão de deputada federal e cunhado de secretário de estado. Sem mandato para “desopilar o fígado”, se achou no “direito” de atuar na selvageria de Joinville com sua camisa do Atlético Paranaense. No momento da confusão pouco importava o cargo de superintendente que descolou na autarquia estadual Águas do Paraná, posto do qual abriu mão após ser flagrado no conflito: no estádio todo mundo é igual! Pouco importava também a coautoria em projeto de lei que buscava coibir a violência nos estádios de Curitiba por meio da identificação fotográfica de torcedores. Juliano foi “vítima” das ideias que defende: estampou a capa de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo em meio à guerra. Devia estar nas páginas policiais!