O Município no Congresso Nacional

Eder Brito

26 de março de 2014 | 11h26

Por Eder Brito

Não se deixe enganar pelo título. Estamos falando de um evento da semana passada, quando a cidade de Campos do Jordão tornou-se por cinco dias consecutivos uma das maiores concentrações de capital político por metro quadrado do país. O local foi sede do Congresso Estadual de Municípios, evento organizado pela APM (Associação Paulista de Municípios). Tradicional na gestão pública, a ação ocorreu pelo 58º ano consecutivo (!!!), sempre reunindo quase todos os Prefeitos e vereadores dos 645 municípios paulistas. E andar pelas “ruas” que se desenhavam entre os estandes de expositores era a certeza de encontrar um retrato fiel da cultura política local do maior e mais rico estado da federação. O que não significa que não era divertido.

A entrada e o credenciamento do evento por si já eram um grande símbolo. Cinco filas diferentes foram organizadas: uma fila para Congressistas; uma fila para expositores; uma fila para vereadores e Presidentes de Câmaras (“não são todos vereadores também?”, perguntei-me encafifado durante toda a semana); outra fila para Prefeitos e vices; e uma última fila exclusiva para… as primeiras-damas. E nada de fila para os maridos de Prefeitas. O cônjuge que fosse acompanhar a esposa teria de entrar na fila das primeiras damas ou contentar-se com um “mero” crachá de congressista. E as figuras femininas não foram poucas. Passaram por lá, por exemplo, as ultra simpáticas Nice Mistilides, prefeita de Jales, Adriana Polisini, vereadora de Palmital e Bruna Silvestre, presidente da Câmara de Avaré. Todas sorridentes, mas minoria na multidão de Prefeitos. Passou também Maria Antonieta de Brito, prefeita do Guarujá. Mas no caso desta, é até compreensível a ausência do marido. No começo do seu mandato, ela nomeou o marido, guarda municipal, como ouvidor da Controladoria Geral do Município. A publicação no Diário Oficial, conforme já explicou a Prefeitura, foi um “engano”. No meio de muitas nomeações, a Prefeita não percebeu a indicação do próprio marido para o cargo. Acontece. Né?

Nos dois andares do centro de convenções do bairro de Capivari, os expositores eram os mais variados. Secretarias Estaduais divulgando programas e serviços para a “prefeitada”; Consórcios intermunicipais tentando explicar seu trabalho, fornecedores de material escolar e até uma empresa especializada em fontes para grandes praças. Chamava a atenção também o alto número de estandes oferecendo sistemas de ensino padronizados, “prontinhos”, esperando uma Prefeitura que queira padronizar a rede municipal de educação, de preferência daquelas que neguem a cultura local e leve a “educação da cidade grande” para os municípios paulistas menos favorecidos. Mas o campeão foi o estande da APRAG – Associação Paulista de Controladores de Pragas Urbanas. A ideia da associação é difundir serviços para acabar com ratos, baratas e todos os tipos de pragas que assolam os ambientes urbanos e rurais dos municípios de São Paulo. Um rapaz trajado de rato gigante distribuía panfletos alegremente, enquanto o estande oferecia gratuitamente os serviços de um caricaturista. Foi o profissional que mais trabalhou no Congresso. Vereadores e Prefeitos se aglomeravam em uma fila interminável, das 9h às 21h, diariamente. Um vereador de Barbosa passou por lá três vezes, porque nãos se contentava com a qualidade. “Não se parece comigo. Tá muito feio”. Virou a tenda de Narciso. Dezenas de gabinetes devem estar com quadros novos pendurados na parede desde a última segunda-feira. Ponto para a Aprag.

Tentar identificar os apelidos de vereadores e prefeitos também era uma atração à parte. Amarildo, prefeito de Itapecerica da Serra preferiu nem colocar o nome de batismo no crachá. Botou “Chuvisco”, o nome de guerra. Hélcio, vereador de Cravinhos, manteve o primeiro nome, mas também adotou o termo usado na campanha: Hélcio Médico. Zé Escola e Renato Job, vereadores do município de Américo Brasiliense, eram uma das duplas mais auto-explicativas do Congresso. O Prefeito de Redenção da Serra e o Prefeito de Natividade da Serra, dois Beneditos, andavam lado a lado no Congresso e protagonizavam uma interessante dupla. Renato Rateiro, vereador de Motuca, ficou confuso e levemente encantado quando se aproximou do estande da Aprag.

Era possível até visualizar uma disputa política local ambulante. O Prefeito de Agudos, Everton Octaviani caminhava por todo o Congresso ao lado de dois vereadores, bem longe do Vereador Luciano Durães, oposição. Este último reclamava do Prefeito e de “seu poder” de nomear amigos para cargos na gestão municipal. “Eu sou tão eleito quanto eles, fui o segundo mais votado”, bradava.

O Congresso também foi visitado por potenciais candidatos das eleições de outubro. Kassab, Padilha, Skaf, Marina Silva, José Serra, Aécio Neves e Geraldo Alckmin passaram por lá. Quando iam falar, as ruas do Congresso se esvaziavam, os auditórios se abarrotavam e brigas quase literais surgiam em busca de uma palavrinha (quem sabe até uma foto) com o popstar da política nacional, ali mesmo, correndo, no cantinho do palco. E isso diz muito do federalismo brasileiro. 

Tendências: