O modo de operar?

Humberto Dantas

15 de novembro de 2013 | 13h13

Numa viagem à Alemanha em 2010 um grupo de prefeitos conversava sobre emendas parlamentares destinadas às suas cidades por deputados estaduais. Um deles estava preocupado com o fato de seu eleitorado ser pequeno e ele ter conseguido dinheiro para obras com mais de um parlamentar. Como faria para agradecer nas urnas? A estratégia era separar o seu grupo: alguns vereadores pediriam votos para um deputado, outros para outro, o vice para um terceiro e ele “para todos”. Parecia simples entender, na prática, um pouco da lógica das emendas.

 

Faz alguns meses, no entanto, um escândalo deflagrado pela Polícia Federal e relacionado ao asfalto veio à tona. Cidades paulistas receberiam dinheiro de parlamentares e contratariam empresas envolvidas no esquema. Além de estrada, o grupo parece ser especialista em distribuir dinheiro para políticos que contribuem com o esquema. Os parlamentares estariam entre eles, é claro. Assim, não é apenas voto, mas também dinheiro o que motiva os deputados no destino de seus recursos locais. A equação é simples: enquanto se levanta recurso de um lado do estado se investe nas eleições em seus currais eleitorais de outro. Aldo Rebelo, ministro dos Esportes, parece exemplificar o fenômeno. Envolvido nas investigações, o deputado federal eleito por São Paulo com 132 mil votos em 2010 captou votos em um local e despejou dinheiro onde sequer foi lembrado – ele nega as denúncias. Mas se comprovadas, entenderemos ainda melhor o modo de operar dos deputados e suas emendas. Perceba: dois meses antes de assumir o ministério o parlamentar destinou R$ 1,2 milhão em emendas  para quatro cidades de São Paulo com o objetivo de realizar obras que foram executadas pelas empresas investigadas. Seria uma forma de agradecer os votos de 2010 ou um investimento futuro?

 

Em Guaraci ele obteve 265 votos, ou 2,8% dos eleitores. Em Cajobi foram 14 minguados eleitores, ou 0,2% dos votos. Já em Lourdes o total foi deprimente: zero. Cada uma delas recebeu R$ 140 mil. E os outros R$ 800 mil? Todos para Jales, onde Aldo capturou 75 votos, ou 0,3% do total. Nesse caso, destaque para o fato de todas elas ficarem na região de São José do Rio Preto, famosa nas investigações da política federal sobre a chamada Máfia do Asfalto. Mas onde Aldo concentrou votos? No eixo Assis-Jaú, distante cerca de 200 km da área beneficiada. Especificamente em Platina, Palmital e Pederneiras o candidato ficou com mais de 15% dos votos locais, atingindo 21% nessa última. O que representaria o interesse em outras terras? O deputado estadual de São Paulo, Roque Barbieri, que denunciou a “venda de emendas” e aparece envolvido no escândalo, diria que se trata de uma tentativa de “roubo de eleitorado”. Seria essa a estratégia correta? Eleitorado tem mesmo dono? Difícil saber, mas se a lógica da boa vizinhança é aquela que melhor explica o fenômeno, Aldo deveria calcular melhor suas relações. Cajobi, Guaraci e Lourdes têm, juntas, menos de 20 mil eleitores, insuficiente para eleger um deputado estadual, quiçá um federal. A resposta talvez possa estar na origem das palavras. O parlamentar tinha como projeto de lei, em plena era da globalização, frear o estrangeirismo na língua portuguesa. Nesse caso, Cajobi quer dizer monte verde em tupi, e no jargão popular um monte de verdinhas é tudo o que uma campanha mais deseja.

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