O lobisomem comeu o Carneiro

Humberto Dantas

07 Agosto 2017 | 07h13

Cansei de dizer aqui que quando soubermos punir as pequenas práticas de agentes públicos de forma emblemática, encurtaremos o caminho para grandes desmandos. Aceito com naturalidade que discordem disso, mas tenho pra mim que o sentimento de boa convivência tem início quando respeitamos o basilar.

A palavra “basilar” pode ser muito mais complexa do que imaginamos. Se o trivial e o cotidiano são incorporados como práticas usuais e estão à margem da lei, a cultura vai espelhar o que existe de mais bizarro, e mudar se tornará um verdadeiro parto.

No Brasil a confusão absoluta entre público e privado é doença relatada desde o seu descobrimento. Os principais tratados de sociologia escritos nas primeiras décadas do século passado raramente são refeitos ou renovados porque ainda parecem atuais, e nos incomodam de tal maneira que não parece haver muito o que mudar naquilo que nos caracteriza. Pois bem: que tal um pequeno exemplo pra ilustrar nossas ideias? Vamos lá.

Joanópolis fica no interior de São Paulo, no Vale do Paraíba, onde para além de um queijo de cabra maravilhoso se costuma dizer que trata-se de terra de lobisomem. As lendas que nos assustam quando somos crianças mudam quando viramos adultos. Lá o monstro é outro, e assombra muito mais. Na semana passada, em decisão acertada, o Tribunal Superior Eleitoral – e olha que tristeza uma aberração dessas ter que chegar ao TSE – condenou com pena de multa e perda de mandato o vereador Luiz Marcelo Costa (PSDB). O motivo é absolutamente capaz de ilustrar o que significa a mais indivisível fusão entre público e privado.

Conhecido como Carneiro do Expedito, o tucano eleito em 2016 estampava o número do celular oficial do mandato que recebia da Câmara Municipal – e precisa pagar telefone de vereador? – em material de propaganda de sua empresa de pavimentação. Tanto em veículo quanto em panfletos. A prática literalmente pavimenta o compromisso do brasileiro com o que a justiça chamou de escárnio com o eleitor e imoralidade com o recurso público. Pela ação da justça, no entanto, parece que  o lobisomem comeu o carneiro, e olha que nem fui atrás de ver se o empresário vereador mantém contrato com a prefeitura…