O lema alpino

Humberto Dantas

23 de setembro de 2013 | 08h00

Quando os jornais noticiaram que Aécio Neves percorreria o Brasil em 2012 apoiando candidaturas municipais estratégicas para seus planos de 2014 ficou a sensação de novidade. Quando foi anunciado que ele estava correndo o país em 2013, novas manchetes! O que muitos não sabem, ou que fazem questão de esquecer, é que isso já havia acontecido antes. Em 2008, lá estava o então governador de Minas Gerais, ao lado do então presidente do PSDB e senador Sérgio Guerra, em pleno palanque de Gravatá pedindo voto para o tucano Ozano Brito, candidato a prefeito. A campanha foi relatada no documentário “Porta a Porta – a política em dois tempos” do cineasta Marcelo Brennand e retomada quatro anos depois por Caco Barcelos e seu Profissão Repórter.

 

Gravatá é planta associada à família das bromélias, e tem como um de seus sinônimos erva-do-gentio, palavra relacionada ao povo não israelita, de acordo com a Bíblia. Em nosso caso, poderíamos dizer que se o povo das escrituras fosse gravataense, Aécio seria um gentio. E seu discurso impressiona pela enorme distância em relação a quem vive ali. Eles pouco entenderam quando o governador do “choque de gestão” afirmou que Ozano conhecia como poucos a máquina pública de Gravatá, e por isso merecia votos em 2008. Aécio, provavelmente, também não compreendia a fama dessa cidade pernambucana de 77 mil habitantes, chamada de “a Suíça brasileira”. De certo pensou que encontraria ali, a exemplo da confederação europeia, uma sociedade politizada, participativa, repleta de práticas cidadãs e pronta para debater o sentido da “máquina pública”. Mas o perfil da nação suíça, cujo lema é “um por todos e por todos por um”, não combina com a desigualdade do Agreste. Os condomínios elegantes, os festivais de música requintada, a alta gastronomia e o “clima de montanha” com temperaturas de 15 graus no inverno – algo próximo do verão alpino – dividem espaço com elevada pobreza e um IDH, registrado em 2000, semelhante ao do Gabão, país atlântico da África e distante mais de oito mil quilômetros de Berna.

 

Diante de tal realidade, em Gravatá certamente o papo é outro. Ao gentio Aécio de 2008 faltaram as promessas feitas pelo bancário Ozano Brito, como conduzir o time da cidade à segunda divisão do campeonato estadual de futebol.  Na época, acompanhado de seu ex-fiador político e então prefeito Joaquim Neto, que terminava seu segundo mandato e não podia se reeleger, o então gerente da Caixa Federal derrotaria Bruno Martiniano (PTB). Em 2012, o adversário petebista se aliou ao prefeito, que trocou o PSDB pelo PSD, para derrotar o ex-prefeito Joaquim (PSDB). Lembremos que trocas dessa natureza já haviam ocorrido em outrora, pois Joaquim assumiu o poder como vice do falecido pai de Bruno, tornando-se adversários. O lema “um por todos e todos por um” não parece fazer morada na “Suíça brasileira”. O certo em Gravatá talvez fosse algo como: “cada um por si, e Deus por todos”, o que pode até fazer sentido em se tratando dos tucanos, mas a história nesse caso envolveria outros personagens…