O fetiche do Bom Gestor

Patricia Tavares

26 de abril de 2017 | 16h48

Estamos vivendo tempos turbulentos no cenário político em todas as esferas – local, nacional, mundial. Uma quase onipresente sensação de que o sistema político em países democráticos não consegue mais representar quem deveria – o povo. Um descrédito na capacidade de políticos fazerem boas escolhas e trabalharem a serviço da sociedade. Um cenário perfeito para um fenômeno que surgiu: os candidatos que se dizem gestores, e não políticos. Parece estar dando certo. Mas, fica a pergunta: será que podemos estar trocando seis por meia dúzia?  Explico.

O que define um bom gestor é a entrega de resultados conforme contratado. Ou seja: para ser possível fazer a gestão e, depois, avaliar se esta gestão foi boa, são necessários alguns passos. Primeiro, entender o contexto e os problemas ou desafios que devem ser enfrentados, definindo o que precisa ser feito (o Diagnóstico). Depois, fazer um planejamento de quais e quantos recursos serão necessários para atacar o problema ou implementar uma decisão – sejam esses recursos materiais, pessoas, dinheiro, informações, autorizações legais – e estabelecer metas com prazos (o Plano de Ação). Daí começa realmente a “mão na massa”: colocar as decisões em prática e acompanhar o trabalho das pessoas (das equipes) e garantir que elas tenham a direção clara e os recursos necessários para fazer o trabalho  (a Implementação). Aí, o processo de acompanhamento tem momentos de “avaliações parciais”- checagem do que está sendo feito vis a vis o que havia sido planejado como entrega. Essa avaliação permite reavaliar o que é possível, corrigir rotas, corrigir processos, e seguir o jogo (a Avaliação). Ao final do ano, ou do período do projeto, é possível avaliar (analisar) se o que foi entregue está de acordo com o que foi contratado (combinado) e se foi feito com a melhor alocação de recursos possível. Quando tudo está ok, podemos dizer que esse cara foi um “Bom Gestor”. Paga-se até bonus para ele, dependendo do lugar de trabalho.

Mas você já deve ter percebido o que é necessário para avaliá-lo como Bom Gestor, não? Dados. Informação sobre o diagnóstico e sobre resultados esperados. Dados sobre os gastos feitos com cada projeto. Explicações de porque o orçamento não foi cumprido – ou alguém imagina que estourar orçamento deveria ser a regra e não exceção?  Acostumados que estamos a ouvir falar que na área pública nenhum orçamento é respeitado (lembremos dos gastos com Olimpíadas e Copa), fica parecendo muito melhor termos mesmo um Gestor profissional que um Político à frente das nossas cidades. Certo?

Ora. Só podemos responder isso se tivermos em mãos o mesmo tipo de informações que empresas possuem ao contratar as metas com um gestor. Vamos ver um exemplo? Falando da área de saúde, uma dor de cabeça na maioria dos municípios e – segundo pesquisa Datafolha de agosto de 2016 – era o maior problema da cidade de SP para 38% dos paulistanos, precisamos entender a operação como um todo.

Um processo típico de atendimento envolve consulta, que vai demandar algum tipo de exame e, depois, o retorno para definir o tipo de tratamento que o paciente requer, incluindo até cirurgia. As palavras em destaque indicam os “pontos de gargalo”, onde existe fila de espera para ser atendido.  Dados da Secretaria Municipal da Saúde e da Rede Nossa São Paulo, publicados em reportagem do Estadão no dia 11 de setembro de 2016, mostram que haviam 753.811 pacientes na espera de procedimentos médicos.  Desse total, 417.224 pacientes precisavam fazer exames (simples ou mais complexos) e aguardavam cerca de três meses e meio para isso. Os dados também mostravam que 251.649 pacientes aguardavam consultas com especialistas e 84.938 estavam à espera por uma cirurgia. Nesses dois casos, a espera chega a cinco meses.  Ou seja, temos aqui duas referências para começar a avaliar a gestão: o número de pessoas na fila E o tempo de espera para ser atendido. Embora nenhuma dessas referências avalie a efetividade do atendimento (ou seja, se resolveu o problema). Mas isso é assunto para outro post.

A gestão Haddad investiu na ampliação de rede para atendimento ajudando a reduzir os tempos de espera nessas filas. E isso é ótimo! Ampliar rede para atender é fundamental.  Mas quem já ficou em fila, qualquer que seja ela, esperando a sua vez sabe que é chato pacas – ainda mais se você está doente. Portanto, o número de pessoas na fila continua sendo percebido como “dor”.  A gestão Dória foi inteligente ao escolher “zerar a fila” de exames – é um ganho rápido para a área de Saúde! E, se você estava nessa fila, parece que tudo melhorou. Aquele alívio quando a fila anda, né?

Vejamos os dados enviados pelo secretario Municipal de Saúde, recebidos em uma consulta que fizemos via LAI (Lei de Acesso a Informação), cuja resposta chegou quinta, dia 20/04: “informamos  que a fila de espera para exames de baixa complexidade é de 302 pacientes, 50.700 pacientes para cirurgia, 320.000 para consulta médica, e 140.300 para consulta médica de retorno”.

Assim, se ficou claro que o processo na saúde envolve várias etapas, e que a avaliação de boa gestão deve levar em conta as pessoas e o tempo de espera (mas não apenas isso), podemos perceber que reduzir o tempo de fila na consulta ou nos exames vai criar uma pressão para as consultas de retorno ou para procedimentos cirúrgicos.   Isso não é ruim! É uma consequência natural de se melhorar o processo em uma de suas partes. Continuemos acompanhando, para checar como esses novos gargalos serão gerenciados. Aí sim poderemos avaliar se não trocamos seis por meia dúzia.
*em parceria com Marcos Silveira

 

 

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