O espírito é de porco, a comida de peixe

Humberto Dantas

01 de novembro de 2013 | 10h15

Em discurso sobre os 25 anos da Constituição Federal na Câmara Municipal de Piraí, cidade com menos de 30 mil habitantes no Vale do Paraíba Fluminense, o vereador José Paulo Carvalho de Oliveira (PT do B), eleito por média com 322 votos em 2012, ofereceu sua percepção sobre o documento cidadão de 1988. Primeiramente se colocou a favor da pena de morte e da censura, contrariando princípios constitucionais absolutos. Qual o impacto de sua opinião sobre a realidade? Nenhum. Ao menos o nobre parlamentar valorizou o voto da mulher, deixando de lado a Constituição e lembrando o Código Eleitoral de 1932 – que apesar de não ter sido citado, nos remete à presença feminina na política como algo bem mais antigo que a atual “carta magna”.

 

Discursos desnecessários e opiniões à parte, a reflexão enveredou para o absurdo. E a aberração ficou reservada aos mendigos. Num ódio preocupante, o vereador nos fez lembrar aqueles jovens brasilenses que ao queimarem o índio Galdino, em 1997, pediram desculpas afirmando: “pensamos que fosse um mendigo”. Detalhe: recentemente, um desses assassinos logrou êxito em concurso no Detran do Distrito Federal e foi empossado. Causa mais surpresa, de acordo com o Correio Braziliense, o fato de ele ter sido aprovado na cota destinada às pessoas com deficiência.

 

E parece fácil fazer uma associação entre discursos e atitudes relacionados ao ódio com um tipo de deficiência complicada de ser aferida: a deficiência moral. Seu sintoma mais claro é o espírito de porco. A despeito das condições físicas e intelectuais de nosso agente de trânsito e de nosso vereador, seriam estes cidadãos vítimas dessa deficiência e guiados por distorção completa no sentido do desrespeito? O que os levam a condenar mendigos, colocando todos sob a marca da intolerância? Parte do que explica um sujeito em condição de mendicância, por exemplo, está associada a patologias psiquiátricas, dependência de álcool e-ou de drogas. Ademais, mesmo quem não se encaixa nesse perfil merece algo muito simples: respeito. O problema demanda tanta atenção que diversas políticas públicas contribuem para o resgate da dignidade humana. Assim, qual o problema do espírito de porco com os mendigos?

 

Difícil afirmar. Mas se em Brasília os jovens de outrora entenderam que o mendigo merecia fogo, em Piraí o parlamentar defendeu que eles devem perder direitos políticos e virar comida de peixe. A ideia pode vir do nome da cidade: em língua tupi Piraí significa rio dos peixes. E falta comida? Difícil. A economia está fortemente ligada à agricultura, à pecuária e à própria pesca. Resta apenas louvar o fato de o político, nesse caso específico, não ter discursado em causa própria: a comida seria para os peixes e não para os suínos. E Russo, como é conhecido na cidade, trabalha no ramo de autopeças, e não com piscicultura. Triste!

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