O deputado, o filme pornô e o homem nu

Humberto Dantas

05 de outubro de 2017 | 07h20

Num mundo cada dia mais individualista e tecnológico é comum que um deputado federal seja flagrado no plenário da Câmara assistindo a um filme pornográfico na tela de seu celular. O tema não se restringe ao parlamento nacional, e já tratamos de histórias de vereadores fazendo o mesmo localmente. Obviamente o “comum” que deu início à primeira frase é irônico até dizer basta. Quebra de decoro é o mínimo que poderíamos esperar de um sujeito que ocupa o tempo que lhe é pago com dinheiro público para, no mais relevante espaço público da democracia, de posse de um celular que provavelmente é pago com dinheiro público, assistir um filminho pornô básico. Isso ocorreu em 2015, envolvendo deputado que em 2017 se encheu de moral pra ir à tribuna da Câmara gritar que merece apanhar quem apoia a exposição do MAM de São Paulo em que um homem se mostrava nu – fosse uma mulher e o universo machista tosco estaria em silêncio, ou melhor, em êxtase.

Claro que o deputado que gosta de uma “sacanagem elementar” não utilizou termos elegantes em seu discurso. Palavras como “cacete” e “porrada”, literalmente comuns no tipo de cinema que lhe agrada, foram usados. E novamente NADA de quebra de decoro. Ameaçar, intimidar, açoitar moralmente quem considera o que se viu no MAM como arte também não representa qualquer afronta ao decoro. O parlamentar, certamente, vai defender que ARTE é aquilo que o agrada e, por isso, como tem imunidade pra falar a asneira que deseja, também imagina que possa assistir seu cineminha de romance intensificado e bravatear sua masculinidade intensa em discursos inflamados. A ARTE que agrada a ele é a permitida. Mas e que lhe desagrada? Essa não pode! Ou seja: o inferno é o outro. E viva a intolerância típica de quem representa 1/513 do que existe de mais simbólico em matéria de democracia.

Mas vamos tentar equilibrar um pouco isso. O que é arte? Milhares de páginas e não chegaremos a um consenso. Seja lá o que for, o fato é que quando se tem clareza acerca do que teremos diante de nós não podemos reclamar do que vimos. O MAM informou de forma extenuante às reportagens que se sucederam ao mais idiota caso polêmico recente, ao símbolo mais tosco de controle alheio, ao conservadorismo podre e à moral enviesada que: EXISTIA UMA PLACA NA PORTA DA SALA ONDE O ARTISTA ESTAVA NU DESTACANDO QUE NAQUELE ESPAÇO HAVIA NUDEZ.

Se pais são capazes de dizer o que desejam para seus filhos, é mais do que absolutamente possível afirmar que entrou ali com seus rebentos quem desejava. O deputado, certamente, não penetraria ali, mas tudo indica que entraria num cineminha chinfrim no centro de alguma capital para ver um filme de sacanagem mequetrefe. Talvez, inclusive, para atestar a masculinidade de seus possíveis filhos ou sobrinhos em sua mentalidade medieval, comprasse pra molecada um DVD da mais absoluta baixaria – isso não seria crime! Assim: ARTE é ARTE. E se ele deseja ver, e se é legal que seja visto, então que veja – desde que não seja no plenário em tempo, espaço e à custa de recursos públicos. Mas contra isso não vemos muita gente escandalizada. Afinal: parte expressiva da sociedade espera algo bem pior dos nossos deputados. Uma pena!

A despeito disso, que não tenhamos a psudo-moralidade de investir sobre a escolha de tantos cidadãos avisados que desejam ver o que um museu e suas bem sinalizadas placas davam a possibilidade de as pessoas NÃO VEREM – isso mesmo, o melhor pra quem não gosta é não ver. Quem viu: viu o que desejava ver. Quem não viu, assim preferiu. E não me venha interferir no meu, pois eu não faria isso com o seu. Absurdo? Posso achar, mas isso me faz não ir à exposição. O que, inclusive, não fiz e tampouco faria.

Por fim: o nome do deputado. Da minha boca e no meu texto não sai, pois num país tão conservador e pseudo-moralista não sou eu a fazer campanha pra um sujeito desse tipo se reeleger de forma oportunista pregando o que não pratica, e praticando o que o zelo pelo decoro parlamentar deveria punir com muito mais veemência que a reação pífia de meia dúzia de alucinados.

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